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Erika de Menezes Hirs
Yin
talvez narrativas fiem vidas.
talvez eu não tenha sido como me contei, talvez
nunca serei.
talvez não haja eu, apenas
a tecelagem contínua entre dois pólos,
cujo projeto
(que desconheço)
pulsa-me a desenhar teias de
sentidos trans-lúcidos
associações arbitrárias
dissipáveis pelo toque da dúvida como bolhas de sabão.
por trás do véu, a natureza sem foco
a noite, as coisas que acontecem
a falta de sentido e intenção:
aqui se faz um mundo,
outro ali, em outra oitava
... e o momento um acorde,
dedilhado em terças e quartas e sextas e não haja maestro.
talvez os homens das ciências sejam certos
e o nosso multi(-)verso seja
órfão.
talvez sejam mais loucos que os fanáticos da sé.
talvez seja só uma questão de abstração inútil
e as coisas façam-se porque assim são feitas,
ou ao invés de aranhas sejamos primatas que descobriram o sentido
ou a falta dele
e houve um alberto caeiro.
talvez nossa narrativa tenha cimentado idéias com razão e luz do sol
desmembrando-as do impossível,
platônicos discretos exilados na ponta de um iceberg.
talvez apolo e dionísio fossem gêmeos e a virgem tenha nascido do
oráculo.
talvez os hindus estejam certos e um deus me sonhe
ou tudo seja o espelho e o tigre que são o mesmo,
e borges, como tirésias, tenha alertado para a escuridão.
talvez eu esteja errada, talvez eu creia.
teço um labirinto em que sei e outro em que queimam meus pecados
e outro em que sou louca ou nada.
sirvo a uma lenda em que a natureza é em mim,
a maior das minhas histórias e a inevitável e que talvez seja a
poesia.
teci mundos olhando para os antigos, para os sonhos que me
antecederam.
teci veias para me enterrar na placenta
e redes hídricas e vermelhas para me reunir em alguém que depois
chamaram de um nome escandinavo.
talvez seja a verdade última, o naufrágio
e eu me derreta no oceano frio do mundo como o gelo no copo
do uísque do meu pai.
talvez a vida me perpasse e desgaste as paredes dos meus poros
me levando em pó para o deserto quente onde o tempo nasceu como
naquele sonho desconexo,
e o tempo seja o deserto e o vento.
ah, dançar com o talvez da Dúvida,
a deusa voraz por epistemologia e altares pagãos
como a noite pelo dia.
tolerar o calafrio do espelho na água da superfície
e mergulhar no frescor não sabido, em nem um pio das corujas que
alerte os futuros.
o peso do infinito, matéria, prima do fio,
os deuses e a Certeza, outra deusa transtornada
enlouquecida em descrédito.
fiar-se com belos dedos, única âncora possível.
São Paulo, 18 de novembro de 2009 |