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Erika de Menezes Hirs

erika.hirs@gmail.com

a

John William Godward (British, 1861-1922), Belleza Pompeiana, detail
 

Poesia:

 


 
Manoel de Barros

Ensaio, crítica, resenha & comentário: 

 


Fortuna:


albano Martins
 

Alguma notícia do(a) autor(a):

 

Erika de Menezes Hirs, paulistana, psicóloga e poeta. Mantém o blog www.epilexica.blogspot.com e escreve para alguns canais de literatura e poesia. (2009)
 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sandro Botticelli, Saint Augustine, Ognissanti's Church, Firenze

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Gerardo Mello Mourão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nauro Machado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

José Nêumanne Pinto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Culpa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alphonsus Guimaraens Filho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rubens Ricupero

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ascendino Leite

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vicente Franz Cecim

 

 

 

 

 

 

Erika de Menezes Hirs

 


 

 


Yin

 

talvez narrativas fiem vidas.

talvez eu não tenha sido como me contei, talvez

nunca serei.

talvez não haja eu, apenas

a tecelagem contínua entre dois pólos,

cujo projeto

(que desconheço)

pulsa-me a desenhar teias de

sentidos trans-lúcidos

associações arbitrárias

dissipáveis pelo toque da dúvida como bolhas de sabão.

 

por trás do véu, a natureza sem foco

a noite, as coisas que acontecem

a falta de sentido e intenção:

aqui se faz um mundo,

outro ali, em outra oitava

... e o momento um acorde,

dedilhado em terças e quartas e sextas e não haja maestro.

 

talvez os homens das ciências sejam certos

e o nosso multi(-)verso seja

órfão.

talvez sejam mais loucos que os fanáticos da sé.

talvez seja só uma questão de abstração inútil

e as coisas façam-se porque assim são feitas,

ou ao invés de aranhas sejamos primatas que descobriram o sentido

ou a falta dele

e houve um alberto caeiro.

 

talvez nossa narrativa tenha cimentado idéias com razão e luz do sol

desmembrando-as do impossível,

platônicos discretos exilados na ponta de um iceberg.

talvez apolo e dionísio fossem gêmeos e a virgem tenha nascido do oráculo.

 

talvez os hindus estejam certos e um deus me sonhe

ou tudo seja o espelho e o tigre que são o mesmo,

e borges, como tirésias, tenha alertado para a escuridão.

 

talvez eu esteja errada, talvez eu creia.

teço um labirinto em que sei e outro em que queimam meus pecados

e outro em que sou louca ou nada.

sirvo a uma lenda em que a natureza é em mim,

a maior das minhas histórias e a inevitável e que talvez seja a poesia.

teci mundos olhando para os antigos, para os sonhos que me antecederam.

teci veias para me enterrar na placenta

e redes hídricas e vermelhas para me reunir em alguém que depois chamaram de um nome escandinavo.

 

talvez seja a verdade última, o naufrágio

e eu me derreta no oceano frio do mundo como o gelo no copo

do uísque do meu pai.

 

talvez a vida me perpasse e desgaste as paredes dos meus poros

me levando em pó para o deserto quente onde o tempo nasceu como naquele sonho desconexo,

e o tempo seja o deserto e o vento.

 

ah, dançar com o talvez da Dúvida,

a deusa voraz por epistemologia e altares pagãos

como a noite pelo dia.

tolerar o calafrio do espelho na água da superfície

e mergulhar no frescor não sabido, em nem um pio das corujas que alerte os futuros.

 

o peso do infinito, matéria, prima do fio,

os deuses e a Certeza, outra deusa transtornada

enlouquecida em descrédito.

fiar-se com belos dedos, única âncora possível.

 

São Paulo, 18 de novembro de 2009

 

 

 

Chão

 

O chão é terreno novo

o pé dedos raiz móvel

os olhos a folha pro sol

cabeça é broto do broto.

 

As costas o tronco firme

duro casca anéis de idade

por dentro seiva vermelha

ou verde, em outra estação -

 

flores só dou no verão

uma hora quente outra inverno

botão dia sim dia não.

 

As frutas selecionadas:

se baixas, alcançam o homem

as altas das aves do céu

de onde deram o nome deus.

 

Ainda não grande mas densa

ainda não reta e nem nunca

galhos tortos já não quebram:

 

vento sempre, forte ou doce

(turbulências do vazio)

bambu chinês ensinou

a arte de se curvar.

 

Vidas simultaneamente:

ora árvore de origem

ora flor de vida curta

ora alimento do outro -

 

comer mineral do chão

profunda no centro da terra

e braços de galhos tortos

onde balançam crianças.

 

São Paulo, 16 de outubro de 2009

 

 

 

Darwin explica, não só Freud

 

A gorila vivia na sala daquela casa. A mulher não a suportava, era fato, mas o animal estava sempre lá, convidado por ela, uma hóspede estranha mas necessária de tão familiar. A família eram as duas, a gorila e a mulher.

Ocorre que, quando a cidade silenciava, a mulher virava gorila e a gorila começava a pensar, variação ecológica do que ocorria com o médico e o monstro. As duas eram de verdade, nenhuma a deformação da outra, nenhum feitiço de bispo, mas talvez fossem lobo e águia se não fossem mulher e macaca, gêmeas de placentas distintas.

O medo da gorila diurna eram as noites humanas, o fracasso do instinto, o gélido mental, ferro frio das barras de uma jaula que ela não conseguia tocar, mas que via na irmã mais nova: a postura articulada, movimentos limitados, a tristeza da estética. A dor da macaca eram o quarto, a sala, as divisórias da casa, as paredes brancas limpas e faltava tanto verde.

O terror da mulher de dia eram os pêlos, o cheiro assustador do bicho que engolia o desodorante no final da tarde. Saber que a gorila existia fora das letras, no mato úmido da vida, trazia terra para a casa: não cabia mais sujeira embaixo do tapete. A mulher via as suas próprias pegadas no chão mas eram só salto alto, falta de couro nos pés. E no começo do dia, quando os pêlos recolhiam-se, seus olhos ficavam tristes como mata devastada, cinza escuro de fumaça; ela quebrava a casa e fumava feito chimpanzé que sabe seu zoológico, enquanto a irmã peluda procurava entender com o pouco cérebro que lhe cabia.

A gorila era a mulher e a mulher era a gorila. As paredes da casa eram eu.

 

 

São Paulo, 3 de dezembro de 2007

 

 

 

 

Intelligent design

 

 

Se e quando algum deus a desenhou, a caneta estava falhando ou a impressora era antiga; caso no princípio tenha mesmo sido o Verbo, algumas palavras devem ter-se prendido na ponta da Língua. Qualquer que fosse a cosmogênese, o fato é que a garota nasceu pontilhada.

Nos primórdios, teve que lidar com seu eu arquipélago com a disciplina da marinha grega, tantas as lacunas do seu domínio e tamanho o medo de invasores: muitos calcanhares não permitem um herói. Foi quando aprendeu a ler e a escrever, e passou a entender as garatujas que vinham nas garrafas enviadas pelos seus eus sobreviventes dos naufrágios, quanta solidão em cada um.

Talvez tenha vindo daí o gosto pelas garrafas, mas isso já é outra história: o importante é que as mensagens uniram pontos e ela começou a se tracejar primeiro em código morse, depois enfileirando hexagramas do I Ching. Muitas e pequenas mortes: em um dia era só sorriso, em outro não existia até o mês seguinte - ou sei lá quando, porque crescimento orgânico não tem padrões previsíveis.

Mas ela ainda tentava prever quando ele apareceu, contando os passos para não cair nos descontínuos abismos de sua pele. Teve medo quando ele achou que o suposto do seu traçado era uma insinuação ontológica, e até tentou guilhotiná-lo com o movimento de suas placas subcutâneas, mas ele também era poroso e os dentes dela só morderam-se a si mesmos. Ela não tinha mais nada a que se apegar, fora ao que se enlaçava voluntariamente às esquinas dos seus traços sobrepostos.

Agarrou-se a isso, então. Foi quando o labirinto de desenho brusco virou curvas concêntricas, uma só caverna de vazio reunido, galáxia pulsando no ritmo descontínuo dos músculos dele e do mundo, e suas lacunas viraram mil bocas de um vulcão que respirava o tempo e era erodido por todos os dias da vida.

E então, naquele segundo antes da vontade do cigarro, enquanto o que sobrara dela concluía que se dissolver era mais divertido do que a ilusão do reunir-se, talvez tenha sido o Verbo a voz que cantava em coro contínuo que a volatilidade era sua ressurreição.

 

São Paulo, 25 de maio de 2008

 

 

 

Koan, ou Pretenso Lamento Zen

 

 

Quisera soltar-me das rédeas das letras

das regras gramaticais

e voltar a correr minha língua pelo nada,

mas as rimas embebedaram-me

e a métrica mantém-me cativa como um poema que sobrevive.

 

Quisera ler Lorca de olhos fechados

escrever os dias sem denominá-los

e oferecer a quem lê meus versos o mesmo sal de janeiro

a pedra grande da praia da infância

e o primeiro choro depois do parto,

mas meus adjetivos não alcançam o sagrado,

e qualquer ode é tantalizante.

 

Não me enamoro das letras porque não há beleza no limite.

As palavras aprisionam, e o ritmo das estrofes é como o eco de correntes.

 

Quisera que a inspiração gostasse de vestir acentos,

dormir pontos ou tropeçar vírgulas

mas os verbos não são infinitivos,

e é cárcere uma língua que não saliva.

 

Antes do dito, tudo haveria:

agora, só o erudito.

 

 

 

Penélope

 

Fim de tarde, maré baixa.

Por que você tá chorando, mamãe?

A lâmina do horizonte rasga os olhos da mulher.

Pra você experimentar o sal, filho - e dá um dedinho de lágrima pro menino mamar.

Olhos de mar, olhos de mar.

 

São Paulo, 17 de outubro de 2007

 

 

 

 

Poesia de batom

 

Metapoesias: autobiográficas,

tratam de si mesmas e de sua própria feitura.

Estão em quase todos os grandes.

Narcisismo literário,

descrição da criação com lirismo masturbatório,

busca da metafísica da poesia-em-si ou do autor nela...

Blá de modernismo.

 

Lindas nos gigantes, que merecem o auto-afago.

Mas quando em um poetinha menor

atente, que elas justificam,

preenchem vazio com barulho,

dizem: olha-pra-mim-e-não-pro-que-digo,

distraem a gente do mundo -

antítese da naturalidade dos versos,

da fusão com as coisas,

do enlevo da alma.

 

Forçar palavra e passarinho só dá em desafino ou lamento.

Ó esse aqui, ó, vê se tem cabimento.

 

 

São Paulo, 30 de outubro de 2009

 

 

 

Por uma nova fonoaudiologia

 

Conheceram-se porque literalmente mamaram em mesmo peito: a língua e o palato sempre foram irmãos e amantes. Ela lama gaia molhada, protótipo da dança do ventre, fêmea nata sinuosa. Ele estrelado e rugoso, ar e osso, céu da boca.

Amaram-se desde o início, músculo viscoso e teto duro, a língua lasciva lambendo as dobras do paraíso, ele molhado por ela de vida, seco e úmido alquímicos. De sua união nasceram as palavras, de suas bebedeiras noturnas a poesia, corpos embalados por saliva.

Sempre se amaram, bem o sabem os disfluentes: a gagueira é na garganta, o buraco é mais embaixo.

 

São Paulo, 24 de novembro de 2007

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2.1.2010