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José Luís
Tavares: um percurso fecundo e luminoso na novíssima poesia
caboverdiana
José
Luis Hopffer C. Almada
1.
De
há uns tempos a esta parte, a crítica e os estudos sobre a
literatura caboverdiana vêm-se debruçando sobre os sinais de
mudança nos paradigmas estético-formais, temáticos,
idelógico-culturais na poesia caboverdiana contemporânea,
sobretudo naquela produzida no período subsequente à
independência das ilhas, ocorrida a Cinco de Julho de 1975.
Na nossa
opinião, essa mudança de paradigmas ocorre de forma insofismável
em Paraíso Apagado por um Trovão e Agreste Matéria
Mundo, de José Luís Tavares.
Neste
poeta, como em poucos poetas contemporâneos de língua
portuguesa, é flagrante a irrupção de novos paradigmas mediante
o primacial recurso à reinvenção da linguagem.
O já
relativamente longo percurso literário de José Luís Tavares
(quarenta e um anos feitos a dez de Junho passado) tem o seu
ponto de partida no Liceu Domingos Ramos da Praia, onde
co-fundou e dirigiu a folha juvenil “Aurora” (de iniciação às
lides literárias), no já longínquo ano de 1987.
Então
“aprendiz de poeta e de ficcionista”, embebido de insaciável
curiosidade intelectual e em pleno processo de maturação
criativa, José Luís Tavares foi frequentador regular das
tertúlias literárias que, por essa altura, pululavam entre os
jovens revelados dos anos oitenta na cidade da Praia.
Foi nestes
tempos praienses que também iniciou a sua colaboração na revista
“Fragmentos”, do Movimento Pró-Cultura, publicação fundada em
1987 e na qual pela primeira vez deu um conto (“Quotidiano
Cinzento”) à estampa, para além de vários poemas indiciadores da
sua progressiva maturação estético-literária.
Nessa
mesma cidade, foi visitante assíduo dos Centros Culturais
Português e Brasileiro, os quais lhe propiciaram fecundos
contactos com as obras de grandes nomes da poesia mundial, como
Ezra Pound, António Ramos Rosa, Eugénio de Andrade ou Haroldo de
Campos.
A sorte
consubstanciada na estrada para a lonjura que se adivinhava
viria abruptamente irromper no destino do jovem professor do
Ciclo Preparatório do Ensino Secundário, então diplomado com os
Cursos dos Liceus, os prementes problemas editoriais que se
viviam na altura, particularmente na capital do país, bem como a
morosidade na escrita do prefácio, a cargo do autor das
presentes linhas, impediram que, em 1988, José Luís Tavares
publicasse “Entre as Mãos e o Silêncio”, seu virtual livro de
estreia, cuja qualidade, no entanto, poderia tê-lo colocado
entre os melhores primeiros livros editados nos princípios dos
anos noventa por elementos da geração literária revelada na
segunda metade dos anos oitenta.
Do
projecto de livro de José Luís Tavares ficaram os poemas
publicados na revista “Fragmentos” e/ou integrados na colectânea
“Mirabilis - de Veias ao Sol” (de intenção panorâmica do
conjunto dos poetas revelados no período situado entre o
imediato pós-25 de Abril de 1974 e Setembro de 1987).
A
propósito desses poemas, alguns deles notoriamente juvenis,
integrados na colectânea “Mirabilis – de Veias ao Sol”, ironizou
José Luís Tavares por ocasião do seu recente regresso a Cabo
Verde para o lançamento dos seus dois primeiros livros, dizendo
que os mesmos “lhe deveriam valer no mínimo um par de
chibatadas”, atestando, por esse modo, além de boa disposição
uma louvável capacidade de autocrítica, distanciamento e
auto-superação.
Corria,
finalmente, o ano de 1988, José Luís Tavares teria a
oportunidade de percorrer a sua Estrada de Damasco, quando,
navegadas as “nuvens nuas” dos céus da Pasárgada para o
saciamento da sede de instrução superior, então somente possível
em longes terras, ancorou em Lisboa, onde, a par da frequência
do Curso de Línguas e Literaturas Modernas e do Curso de
Filosofia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
Universidade Nova, protagonizou intenso e profícuo convívio com
os escaparates, os auditórios, as tertúlias e outros lugares do
saber e do lazer.
Foi nessa
oportunidade, também de reencontro com os pais e demais
familiares de há muito radicados na periferia da ex-capital do
Império colonial, que o estudante universitário pôde contactar e
conhecer a cintura suburbana da Pedreira dos Húngaros e do Alto
de Santa Catarina, de onde, igualmente, pôde divisar e dissecar
todo o resplendor de dignidade que fazia por sobreviver “ao
logro no coração metropolitano do império” (como escreveu o
poeta Arménio Vieira) e se acendia, inexaurível, no ser humano
encurralado pela segregação social, racial e residencial, sem
todavia deixar de se extasiar com o esplendor lato e líquido do
Tejo, ele que vem de uma terra despojada de rios, mas bafejado
pelo mar e, periodicamente, invadido pelas águas barrentas das
cheias dos eventuais meses de as-águas.
Nesta
cidade de Lisboa, também crioula por tributo de vivência, de
impregnação cívica, de amada descendência, bem como dos dias
costurados em suor e esforço das mentes perscrutantes dos
estudantes e dos intelectuais e das mãos laboriosas das mulheres
e dos operários em construção, todos originários das
ilhas sahelianas, colabora no DN – Jovem (suplemento literário
do jornal lisboeta “Diário de Notícias”), assim participando,
com um outro caboverdiano (António da Névada), na emergência de
uma nova geração de literatos de pena lusógrafa e de rosto
português (por vezes, inevitável e sub-repticiamente apodado de
pretoguês) e no JL (“Jornal de Artes e Letras”), iniciais por
que é também conhecido entre os amigos e admiradores mais
indefectíveis.
Apaixonado
(diria até fanático) cultor de poesia, insaciável na busca do
novo na linguagem e na perscrutação do insondável para além do
real quotidiano, municiado com os conhecimentos da técnica do
verso, da tradição poética e da poesia contemporânea lusógrafas,
da teoria da literatura e da filosofia que a formação
universitária e um trabalho quotidiano, persistente, as
leituras, múltiplas e transpirantes, os dias insones e as noites
de noctívago lhe propiciaram, José Luís Tavares propôs-se ser um
partícipe activo e fecundo na invenção de um dizer novo, não só
na poesia caboverdiana, como também em toda a poesia de língua
portuguesa.
Dizer novo
e fundado num cânone de raiz ocidental e matriz lusógrafa, mesmo
se marcado por uma cosmologia pessoal, indissociável, ainda que
por modo remoto, de um sopro badio e de uma sensibilidade
assumidamente caboverdiana.
É o
próprio José Luís Tavares que se desvela a Maria João Cantinho
em entrevista publicada na revista electrónica Storm-Magazine:
“Sou poeta e sou cabo-verdiano. O ser cabo-verdiano está
subsumido na condição de poeta. Clandestino na ditadura do
mundo, como o definiu Herberto Hélder, o poeta nunca é de um só
lugar, de uma só língua, de uma só tradição. Híbrida e viajante
é a sua condição, e, no meu caso pessoal, ainda mais, em
decorrência do ethos, das peculiaridades históricas e do longo
afastamento do solo pátrio”.
Na
prossecução do desiderato de inovação e renovação a que se
propôs, José Luís Tavares tornou-se um festejado artífice da
universalização da poesia caboverdiana e, nessa empreitada,
cúmplice do labor e da herança ainda viva de poetas,
companheiros da língua comum, mas também das ilhas nossas,
grandes como João Vário, Gabriel Mariano, T. T. Tiofe, Corsino
Fortes, Oswaldo Osório, Mário Fonseca e, deste modo, atípico
testamenteiro da consigna de Arménio Vieira: “é pela
metaforização do discurso que se salva o pensamento”.
Os livros
de José Luís Tavares estão aí para, de forma absolutamente
autoritária, comprovar a mudança de paradigma na poesia
caboverdiana contemporânea, por um lado, e, por outro lado,
contribuir para tornar ainda mais visível a reinvenção da arte
de escrever na poesia lusógrafa dos nossos tempos.
2.
É o que,
aliás, constatou em estado de choque estético, o jornalista,
poeta e crítico literário português António Cabrita (“corsário
das ilhas”, in suplemento “Actual” do jornal “Expresso” de 6 de
Março de 2004) para quem o livro inaugural Paraíso Apagado
por um Trovão é a mais “autoritária” primeira obra
que leu nos últimos tempos”, sendo ademais comprovativo de “um
dos mais flagrantes domínios da língua portuguesa” que lhe foi
dado testemunhar.
Na
verdade, Paraíso Apagado por um Trovão choca, desde logo,
pelo seu apuro de linguagem, vazada num português raro (quiçá
rebuscado) na sua erudição.
Característico dessa linguagem é o seu quase despojamento do
coloquialismo identitário da poética e do concreto léxico da
caboverdianidade, por vezes marcada pelo chamado português
literário de invenção claridosa, o qual se singulariza por ser
frequentemente chão, mesmo se irrecusavelmente autêntico na sua
pertinência cultural e assaz elaborado na sua inventividade
literária. De todo o modo é o apuro da linguagem, na sua
raridade e erudição, que tornam patente e incontornável o efeito
universalizante de ruptura com o telurismo atávico, quer o de
raiz claridosa, quer o de feição novalargadista e vanguardista.
O
despojamento e o efeito de ruptura acima assinalados denotam-se
como tanto mais insólitos, quando a convocação dos lugares onde
o poeta enterrou o seu umbigo e passeou a sua sombra, os lugares
onde habita o trovão (título do primeiro caderno) e das
pessoas, redimidas da amnésia nos retratos cativos
(título do segundo caderno), adensa-se de referências telúricas
ou conexas com o real caboverdiano.
Referencialidade des-ocultada na medida em que, em regra, os
motivos são inequivocamente caboverdianos e se trata da evocação
da infância e dos seus trilhos memorizados como paradisíacos na
sua devastada nudez bem como (sentimo-lo, adivinhámo-lo!) da
encenação da memória junto ao mar do Tarrafal de Santiago de
Cabo Verde - o da circunscrição do medo no ex-campo de morte
lenta do chão bom - e à agreste paisagem onde cristos de
negra pele se crucificam na azáfama da corta de
frutos raros e cada dia na labuta dos pescadores é uma
atribulação sagrada e rente à escassez do paraíso.
Referencialidade velada e surpreendente, no entanto, devido ao
cunho universalizante logrado por efeito da meditação
retrospectiva, orquestrada pelo “rigor e pela cadência” da
palavra tornada cúmplice, como se parte indispensável da
utensilisagem doméstica, percutindo inventariante (para utilizar
o título do terceiro caderno “Matéria de Inventário”) sobre as
vivências experienciadas (Erlebnis und Erfahrung, diríamos em
alemão), observadas ou, melhor, imaginadas e recriadas do e para
o interior rural de Santiago e da vizinhança rude e numerosa, e
por mor da elevação, até a um certo preciosismo, da linguagem.
Preciosismo, ressalve-se, não no sentido de fátuo e barroco
exibicionismo verbal e lexicográfico, mas da adequação da
palavra exacta e memorável à prolífera santidade dos lugares, à
recusa do olvido e ao politeísmo dos olhares da revisitação
sobre a chã variedade dos objectos de culto.
É essa
linguagem elevada que, por vezes, é inesperada e insolitamente
contaminada quer por expressões que remontam a Camões e à poesia
medieval de D. Dinis da frol do verde pino e ainda
sobrevivem no idioma caboverdiano, quer por termos oriundos do
crioulo fundo (basilectal) de Santiago (por exemplo:
txabeta, lacacan, tabanca).
Se para um
leitor não caboverdiano (ou não conhecedor da variante-matriz da
língua caboverdiana) presumimos que o uso de termos do crioulo
fundo de Santiago pode provocar um efeito de estranheza -
enquanto misto de espanto, surpresa, assombro e curiosidade em
face da intimidade com o raro, quais pedras preciosas
incrustadas num antiquíssimo e valioso tecido, já, de per se, de
altíssima qualidade -, para um leitor caboverdiano os mesmos
termos poderão, muito provavelmente, provocar um efeito de
inesperada e inusitada autenticidade telúrica, cosmogónica,
humana e identitária.
É esse
efeito que vem somar-se ao assombro porventura sentido em face
do insólito adveniente da linguagem utilizada e na qual ressumam
tradição e modernidade, em toda a sua plenitude e soberania
estéticas. Linguagem reverenciadora do cânone da mais alta
estirpe mas também portadora de constantes, inusitadas,
provocatórias rupturas que o autor prefere denominar
sabotagens linguísticas.
É o mesmo
efeito de autenticidade acima assinalado que vem juntar-se à
magoada resplandecência do chão da infância, das suas veredas,
dos seus trilhos e das suas genealogias, do seu indizível
espanto, agora exumados por mor da encenação da memória pela
linguagem – a mais alta, a mais trovejante - da poesia.
Opinando
que Paraíso Apagado por um Trovão se oferece como
“formidável trabalho arqueológico da língua portuguesa”, em
recensão publicada na revista Artiletra situa
Fátima Monteiro o labor de José Luís Tavares no limiar de uma
certa erudição dicionarista.
Explica a
académica: “Encontramos nele muitas palavras que quase só têm
lugar nos dicionários do português, enquanto se afirmam, ao
mesmo tempo, como substrato e latência do medievo e do
Renascimento na fala rural do cabo-verdiano de hoje. No universo
vocabular, Gil Vicente e Camões não se sentiriam certamente em
terra estrangeira. A presença de Camões não se denota, aliás,
somente no vocábulo. Ela surge na prosódia, isto é, na forma de
compor os versos, quando não na paródia directa do verso
camoniano, seja o épico, seja o lírico”.
Em
Paraíso Apagado
por um Trovão,
a linguagem é, assim, ardentemente sincronizada, deliberadamente
sintonizada com a poesia contemporânea e a tradição poética (o
“veio da tradição”, como refere o poeta), com a lusografia
poética da mais alta nobreza, incluindo a de teor iconoclasta e
pecaminosa (quer essa poesia – contemporânea ou oriunda da
tradição erudita ocidental - tenham sido originalmente escritas
em língua portuguesa quer tenham sido nela vertidas por via da
tradução).
É também
sobre a linguagem vazada em Paraíso Apagado por um Trovão
que discorre o universitário Pires Laranjeira (“Um paraíso
cintilante”, in JL, nr de 26 de Maio/ 8 de Junho de 2004):”
Escreve com uma pontuação e um estilo perceptíveis, que ajudam à
percepção, sem “modernices” (que, por vezes, escondem
falibilidades em principiantes), receptor evidente da lição
medieval, camoniana, bíblica, ática, ovidiana, dominando a
língua portuguesa no seu esplendor oracular, dramático,
digressivo, narrático. Em que a espessura discursiva não impede
o gosto da leitura (…). Enfim o domínio certeiro do vocabulário
requintado num fraseado longo, complexo e paradoxalmente
cristalino, dizendo as doces lembranças, os amargos traumas
sócio-políticos (escolares também) e a saga popular”. É esse
mesmo universitário que tece as seguintes considerações
conclusivas sobre o livro em pauta: “ É uma das maiores
surpresas, desde há muitos anos, da poesia africana e mesmo de
toda a poesia de língua portuguesa, porque alcança uma
maturidade inabitual em estreias, consegue a desenvoltura
prosódica, a harmonia melódica e legibilidade de sentidos com
sustentação simultaneamente de recorte clássico e moderno”.
O universo
rural de Santiago, lugar nunca nomeado mas tornado reconhecível
e quase mí(s)tico devido aos rastos do suor e do cieiro que
perlam essa poesia, adentra-se todo no que poderia ser
considerado como uma longa e ininterrupta meditação sobre a
infância e a sua maturação, ao sabor das estações das vidas que
crescem e fenecem no decurso dessa única estação rústica,
assombrada pela chuva (“lágrimas desses antigos / rios
sucumbidos à voragem dos estios”) que era o tempo desse “país
verde sem estações”.
Por vezes
de indescritível heroicidade: “Vejo-o erecto na paisagem / Como
um índio emboscando a tarde. /Tem junta de bois e alqueire de
sequeiro. Tem filho na estranja e um nó no coração”.
Ou: “Feliz
o que abraçou o árduo destino/ da gleba - embora sobre ele se
abata / amiúde a inclemência, não lhe faltará/ o magro condão de
haver tocado/ a cósmica densidão da terra”.
Densidão
da terra por onde circulam os ciclos todos da vida e da morte,
as marés completas do choro e do mar, as tentações repletas de
alegria, de pecado e do sermão, então solenemente em latim, e
junto ao qual, aparentemente inócuo, debita-se o tempo também
concentracionário:”Aqui, circunscrição do medo. / Aqui, as
letárgicas armas vigiam. / Aqui, tributos pagos em arrobas/ de
queixume. Aqui, chamiços de ossos pela húmida tarde de Dezembro
(…) Aqui a pedra berço da incubação. /Aqui, cárcere de
sediciosos sob o assédio / dos mosquitos (…)”.
Não é,
pois, a ausência de referencialidade (explícita ou adivinhada)
a coisas nossas o que empresta a marca distintiva de
Paraíso Apagado por um Trovão, mas a sua convocação mediante
um dizer novo na sua riqueza metafórica e obsidiante erudição e
no que elas têm de universalidade ontológica.
A
intertextualidade com autores como Rilke, Seamus Heaney,
Vitorino Nemésio, Ted Hughes ou João Cabral de Melo Neto torna
mais irrepreensível e latamente perceptível a condição humana
que, sem fátuas sacralizações, se quer incensar em Paraíso
Apagado por um Trovão.
Condição
humana certamente de todos os lugares, onde crocitam corvos, e
nos quais se almeja erguer-se “para a mortal vocação de ser
humano”, mas privilegiadamente de Cabo Verde, “chão antigo, /
agreste, familiar” de “vida rude elementar, vereda de antigos
passos” para onde se regressa pelo lúcido padecimento do
informe, que pela arte em mundo se converte.
Arte que
sem se nomear é um verdadeiro epos à infância, “essa idade
também de desatinos”, e justificaria, por si só, a colocação de
Paraíso Apagado por um Trovão no lugar reservado à poesia
de intenção e/ou ressonância épica, como ocorre com a poesia de
T. T. Tiofe e Corsino Fortes.
3.
Ainda não
se arrefecera o impacto do primeiro livro, impacto esse tornado
mais visível pela atribuição do prémio Mário António da Fundação
Calouste Gulbenkian, publica José Luís Tavares o muito denso e
volumoso Agreste Matéria Mundo.
É de novo
António Cabrita quem opina (“O Ouro do ilhéu”,
suplemento”Actual”, do jornal “Expresso”, de 23 de Abril de
2005) que em Agreste Matéria Mundo (“uma prova de fôlego
com 220 páginas”) “a geografia volve absolutamente literária e
acentua-se numa auto-reflexidade que se compraz na remodelagem
de géneros e tropos literários mas com um sentido de
oportunidade e uma vivacidade que salva sempre o texto da
literatice. Ao que acresce um humor, numa sábia dosagem de
espontaneidade e cálculo, que nunca perde o pendor parecem
particularmente válidas para o primeiro caderno do livro
trágico:” e a vida, essa canção verrina, / entretém-se a fiar
navalhas (…)”.
Para Maria
João Cantinho “denúncia de idealismos, apresentação de um
mal-estar essencial são magma essencial que constitui esta obra,
conferindo-lhe a luz de um sol negro que brilha sobre a encosta
da melancolia” (texto de apresentação pública do livro publicado
na storm-magazine. com). Outro modo de dizer que o
livro é também de interrogação e de perplexidade sobre o próprio
acto de criação poética.
Tal
asserção é particularmente válida para o primeiro caderno do
livro “A Deserção das Musas (meditações metapoéticas em chave
lírica)”, onde também é escalpelizada a condição maldita do
poeta:”Recolhido ao brusco silêncio, crês / que a poesia nos
solve das nossas faltas para com o mundo. Não te apercebes / que
o tempo, ou outro deus qualquer, / nos pede contas dessas tardes
/em que entregamos à pugna irredentora; a que não promete
despojos, / embora trace os contornos do reino a haver”.
Nos
cadernos seguintes (“Cena de Cinzas”, “Vernais”, “Matinais”,
“Vesperais”) o poeta prossegue as meditações -
desmistificadoras, porque dessacralizadoras - sobre o mundo, e
um dos seus correlatos, o amor (carnal, místico, religioso,
etc.) e os seus escombros, tornados também visíveis em sítios
trilhados pelo olhar nómada, pela descrente lucidez do poeta, e,
por isso, tornados próximos e, por via da reflexão,
expropriados. Ainda que com o despojamento de quem tem na
descrença a sua fé e a pertinência do mundo resida na
circunstância de o mesmo ser um único e indiviso lugar de
resplandecência do verbo.
Escreve
Maria João Cantinho que ressuma de Agreste Matéria Mundo
um certo cinismo, o qual resultaria, nas próprias palavras do
poeta inseridas na entrevista concedida à estudiosa, de uma
“clarividência amarga e triste, e uma secreta intimidade com as
coisas e os seres”. É a mesma estudiosa que ressalta: “mas um
cinismo que é amenizado pela ironia (e também nesse aspecto José
Luís Tavares nunca descamba na paródia fácil) e podemos dizer,
assim, que a ironia é a sua consolação metafísica”.
Em
Agreste Matéria Mundo
persiste
José Luís Tavares no labor da transfiguração do real, do
“informe” da “agreste matéria”, pela linguagem e pelo seu poder
sobretudo demiúrgico, porque também transfigurador.
A este
propósito comenta Maria João Cantinho: “não lhe é alheio o uso
de uma linguagem conceptual”, ressalvando, no entanto: “se a
usa, privilegiando o uso de vocábulos difíceis e acasalando-a
com a trivialidade da experiência e mesmo, cruzando-a com a
linguagem rasteira, não se deixa arrastar para o exercício
estilístico e retórico, literário”.
A concluir
este breve excurso pelos livros publicados de José Luís Tavares,
poderíamos dizer que o nascimento de um livro (sobretudo quando
portador de uma cosmogonia pessoal e de uma assumida deliberação
de ruptura estética e não só) é sempre comparável ao nascimento
de um mundo e, quando de poesia se trata, ao desvelamento de um
mistério que, mesmo extravasando-se para os outros, continua a
ser sobretudo interior e habitado primordialmente pela solidão.
Então,
somos nós, leitores, como que investidos no papel de
escrutinadores da busca de reconhecimento por parte do autor, em
boa medida devido à circunstância de também sermos testemunhas
quase oculares desse parto da sombra, primacialmente
desencadeado por uma infatigável e missionária radicação na
criativa maldição da escrita.
E, por
isso, sentimo-nos, nós também, feridos na nossa razão ética e na
nossa sensibilidade estética - como se fôssemos nós próprios as
vítimas eleitas da injustiça e os alvos preferenciais da
perfídia – quando, escandalizados, porém impotentes,
contemplamos o modo quase sacramental como se vem intentando
sonegar e ocultar a luminosa qualidade da obra assim produzida e
exemplarmente ilustrada nos dois livros acima referenciados.
Para
tanto, tem-se lançado mão de estratagemas vários, de entre os
quais avulta a sistemática preterição de estas e de outras obras
em conhecidos concursos literários, assim logrando-se alcandorar
outros às luzes da ribalta mediática e aos altares do
reconhecimento público.
Mesmo se,
reconhecidamente, menos merecedores de tributo literário,
porque autores desiguais, nos quais a mediania e a
convencionalidade coexistem com a mediocridade e, em menor grau,
com alguma qualidade da escrita, todavia credita-se a esses
outros, aliás muito festejados, autores maior sagacidade na
manha e na manipulação dos bastidores do obscuro mundo das
vénias mútuas.
Mundo,
aliás, no qual têm imperado os duvidosos gostos da “monocultura
identitária” (como corajosamente relembrava JLT aquando de uma
sua sagração na Gulbenkian), do canhestro telurismo ou de
quotas, instituídas de forma sub-reptícia para compensar vozes
alegadamente detentoras da natural vocação para as artes, bem
como melífluas e bem-parecidas “minorias”, suposta e
convenientemente vitimizadas pela história, pelo género, pelo
lugar do nascimento ou pelo tempo do sofrimento.
Ainda que
a mesma manipulação tivesse que significar o sacrifício de
princípios éticos e deontológicos devidamente consubstanciados
em regulamentos de concurso tempestivamente produzidos para a
nominal salvação da equidade, da objectividade e da
transparência do inapelável juízo dos decisores de serviço e,
por esta forma, implicar o desassombrado e desapiedado enterro
da estética, ela própria.
Nessa saga
tornou-se possível a concretização do indisfarçável intuito do
favorecimento ou da aceleração de outras - pretensamente mais
sonantes - carreiras de proclamados ícones e candidatos
assumidos a lugares cativos na nomenclatura literária e não só,
mesmo se reconhecemos que, por vezes, à sua revelia e sem a sua
activa cumplicidade.
Nesta
circunstância, parece-nos oportuno relembrar António Cabrita
quando no artigo “O Ouro do Ilhéu” se referia à (não) reacção de
alguma crítica “metropolitana” (portuguesa, queremos dizer) em
relação aos livros de JLT:” Loas à língua de um poeta com mais
de mil palavras da comum fronteira lusa (…) estamos diante de um
“caso literário”, a que só a miopia de uma certa crítica
obcecada com os graus de parentesco não dá o devido relevo. Com
Tavares apetece lembrar o que Brodsky escreveu sobre Derek
Walcott: ‘esta cobardia mental e espiritual patente nos intentos
para converter este homem num escritor regional pode explicar-se
também pela pouca vontade da crítica profissional em admitir que
o grende poeta da língua inglesa é negro”.
Mutantis mutandis,
pôde-se identificar idêntica vontade de ocultação e de exclusão
do livro Agreste Matéria Mundo em certos meios literários
mais reféns e prisioneiros do nacionalismo identitário, mesmo se
convenientemente escudada numa argumentação de sinal contrário,
fundada no pretenso exclusivismo literário do pretérito slogan
do “fincar os pés na terra” do sahel insular. É assim que se
pôde testemunhar a insidiosa actuação de proeminentes figuras
desses meios literários no sentido da ressuscitação dos
antiquíssimos e famigerados anátemas de desenraizamento e
do suposto comprometimento com uma corrente estética
defensora da arte pela arte, com os quais, aliás, quiseram
também vitimar, em tempos idos, a grandiosa obra de João Vário
consubstanciada nos nove volumes de Exemplos.
No entanto
e como se viu, nada disso se tem mostrado capaz de diminuir ou
de melindrar o alto juízo que reputados conhecedores da
literatura fizeram e continuam a fazer da poesia de José Luís
Tavares.
Repetimo-lo: não obstante a endémica persistência em
marginalizá-la, ora condescendentemente confinando-a ao lugar
menor de alegada obra de jovem escritor africano, ora
traiçoeiramente condenando-a a um não – lugar, próprio de
lusógrafos expatriados, mesmo se detentores de inapagáveis
credenciais.
Os prémios
Cesário Verde, da Câmara Municipal de Oeiras, e Mário António da
Fundação Calouste Gulbenkian, para Paraíso Apagado para um
Trovão, e Jorge Barbosa, da Associação de Escritores
Cabo-Verdianos, para Agreste Matéria Mundo, bem como o
lugar cimeiro atingido nas Correntes da Escrita Ibero-Americana
da Póvoa de Varzim pela primeira das obras mencionadas (entre as
dez nomeadas num universo de mais de uma centena de livros)
vieram de alguma forma laurear o inegável mérito da transpiração
poética (e, assim, o estatuto de escritor de qualidade de JLT),
como também evidenciar a perplexidade ética e estética que
perpassavam a, por vezes translúcida, ambiência que presidiu à
sua atribuição.
4.
Depois da
publicação dos seus dois livros, enveredou José Luís Tavares
também pela escrita de uma poesia em língua caboverdiana.
Para tanto
o poeta tem-se socorrido de três vias: 1) a tradução, a partir
do português, de grandes obras da poesia mundial, com destaque
para os Sonetos de Luís de Camões e a Ode Marítima e
outros poemas de Álvaro de Campos; 2) A versão em crioulo de
poemas lusógrafos de lavra própria ou de outros poetas
caboverdianos, como os seleccionados para uma antologia bilingue
em preparação e devidamente assinalada em nota do autor do
presente texto; 3) A escrita original de poesia em língua
caboverdiana.
Os mais
atentos puderam seguir alguns sinais desses desenvolvimentos
mais recentes, na medida em que José Luiz Tavares (opção recente
do poeta para assinar os seu textos e, assim, marcar a sua
condição de escritor) tem-se transformado num dos mais
produtivos cultores actuais da língua caboverdiana, como atestam
os muitos “raps” e outros poemas – canções, publicados na sua
maioria no jornal electrónico “liberal-caboverde”, bem como um
dos mais abalizados defensores e utilizadores do ALUPEC
(Alfabeto Unificado para a Escrita do Caboverdiano), mesmo se, à
semelhança e com a cumplicidade de outros “alupecadores” (como o
autor das presentes linhas humildemente se confessa),
permanecendo, contudo, assaz crítico em relação a algumas
soluções, como a generalizada acentuação das vogais abertas.
Nesse
labor, denota-se, desde logo, que o poeta tenta imprimir à sua
poesia em crioulo a mesma riqueza lexical, a mesma exuberância
imagética e o mesmo rigor estilístico, muito marcado pelo uso da
métrica e da rima, que têm presidido à muito elaborada feitura
da sua poesia em língua portuguesa.
Deste
modo, tem-se tornado muito visível o seu intento de afastamento
e de distanciamento da oralitura mais elementar, sem todavia
descurar a exploração de todas as potencialidades
morfo-sintácticas e lexicais do crioulo, incluindo aquelas
propiciadas pela oratura e pelo continuum linguístico que vai do
basilectal ao mesolectal. |