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Fernando
Echevarría: a dádiva da leitura
Diálogo
com Floriano Martins
FM
A pergunta inicial é um lugar-comum: como surge um poeta? Porém
eu queria tratar do tema mesclando antecedentes, afinidades e
aquele momento em que te descobres tocado pela condição de poeta
e inclusive observar a existência de um convívio expressivo com
outras artes e a própria interferência da experiência
existencial. É possível?
FE
Há na pergunta indícios que apontam para certo biografismo.
Confesso-me avesso a esse pendor. A meu ver, poeta, recorrendo
ao étimo, é aquele que faz. E esse "fazer", esse acto de "estar
a fazer", abandona-o a um grau tal de solidão que passa a ser
solitário mesmo de si próprio. Ou, por outras palavras, quase
anulado enquanto indivíduo. Antes e depois disso é um sujeito
como outro qualquer, acaso inclinado a cair nesse abandono a
qualquer instante.
Afinidades? Sim, sobretudo no período de formação: O Século de
Ouro espanhol, a geração de 98 e a de 27, o Padre António
Vieira.
Quanto ao
convívio com outras artes, mormente as visuais e a música, não
foram só importantes como se poderiam considerar afinidades ao
mesmo título que as literárias.
FM
Tua defesa valiosa acerca do ofício e da compreensão das
relações entre virtude e hábito, de alguma maneira pode ser
interpretada como rejeição a uma atitude espontânea que muitos
entenderam como uma atitude irresponsável, da parte do
surrealismo, no que respeita ao tratamento da linguagem poética?
FE
Retomando a imagem de Sta. Teresa de Jesus poder-se-ia dizer que
também na poesia há muitas moradas. O surrealismo é uma delas.
Porque deveria ele ser rejeitado? Tanto mais que, de há muito,
lá foram beber poetas, de língua portuguesa ou não, sem serem
considerados surrealistas puros. Um bom exemplo disso seria
Vicente Aleixandre, poeta da geração de 1927, para não falar de
Gerardo Diego, que também por lá passou. Quanto a mim, digamos
que a minha morada não é essa, embora seja arriscado qualquer
poeta afirmar que ficou imune a tal experiência. Nem os
primeiros surrealistas se julgaram de tão originais que não
procurassem pioneiros “avant la lettre” em poetas anteriores,
por exemplo, Lautréamont. Isso viria talvez validar o pensamento
daqueles que acham que não há saltos significativos na história
da literatura.
De resto
“ofício” há-o em qualquer espécie de poesia. Ninguém deixa de
estar atento e, se necessário, corrigir o que, acaso, julgar
frouxo num poema em determinada altura.
Já as
relações entre virtude – no sentido primeiro do termo: força – e
hábito (e não habituação) apontam para uma teoria tomista da
arte, consistindo esta, digamos, no caminho que vai, passe a
palavra, da concepção até à realidade da obra como facto
exterior. Na verdade ofício, se atendermos ao seu étimo,
significa “fazer” vencendo um obstáculo, como aliás poesia, na
sua acepção grega primitiva.
FM
A preocupação com a língua, imaginação simbólica, experimentos
etimológicos, dentre outros casos, isto evidente não define a
essência de uma poética. Contudo, são aspectos referidos pela
crítica quando trata de tua poesia. Uma voz intensa e ulterior
cuja raiz interroga por sua relação com o símbolo, a metafísica
e todo um conjunto de sensações as mais cotidianas e mesmo
vulgares, eis um feixe que também se deve considerar ao definir
uma poética. Neste sentido indago o que ela, a poesia, assim
entendida como uma entidade evocada, busca comunicar a partir de
Fernando Echevarría?
FE
Se a critica o vê é de supor que lá esteja. Isso, no entanto,
não pressupõe um projecto prévio. O facto de haver vestígios de
simbolismo – e há-os em quase todas as correntes poéticas –
quererá, acaso, dizer que ele é, de certo modo, consubstancial,
no sentido em que Jorge Guillén afirma que símbolo “é o que é e
algo mais”. Este “algo mais” seria aquilo que se acrescenta à
“língua comercial”, segundo a expressão de Mallarmé,
entendendo-se por “língua comercial” a da fala quotidiana.
Poder-se-ia dizer que se trata de uma possível definição de
poesia. De todos os demais elementos referidos haverá resquícios
também, quer porque me interesso por filosofia quer, sobretudo,
por me parecer que a entrega à poesia se assemelha a uma espécie
de exercício espiritual.
FM
E de que maneira esses elementos se particularizam em um livro
como Uso de Penumbra? Distingue-se em algo do restante da
criação de tua poesia?
FE
Uso de Penumbra é, de facto, um caso particular, mas não
tanto como poderia parecer à primeira vista. Nos restantes
livros trata-se de fazer entrar tudo para "O LIVRO" dado que
"tudo no mundo existe para vir dar NELE" enquanto realidade
primeira, ou seja, aquela em que o homem encontrou o pasmo por
primeira vez ao deparar com a terra. A pintura, a escultura, a
música são, digamos assim, realidades segundas, pois
acrescentadas à criação primeira pelo mesmo homem. Mas
inegavelmente reais também e, por isso, deviam necessariamente
entrar para ali.
FM
Eu quero insistir na leitura do surrealismo por uma razão: a
intensidade alcançada pela linguagem convulsiva do mesmo no
diálogo com uma tradição essencialmente barroca da poesia na
América Latina. Sem esta profunda identificação não se pode
compreender o surrealismo existente na poesia de poetas como os
brasileiros Jorge de Lima e Murilo Mendes, dos argentinos
Enrique Molina e Francisco Madariaga, dos peruanos César Moro e
Emilio Adolfo Westphalen, e do chileno Ludwig Zeller, sobretudo.
O transbordamento barroco em muitos casos é entendido como
decorativo. Já o mesmo componente no surrealismo se interpreta
como delirante (dando ao termo uma conotação depreciativa). Nos
dois casos, o que me parece legítimo é o sentido de
transfiguração da linguagem, de instauração de um grau
superlativo de percepção da realidade. Excessos de configuração
de linguagem nós encontramos nas duas tendências, como em
quaisquer outras. Como observas esta relação entre duas
correntes e de que maneira entendes que certa obsessão
racionalista seja critério válido para explicar os obstáculos
encontrados pelo surrealismo para atuar em Portugal?
FE
Se algo obstasse ao “transbordamento barroco” teríamos de
suprimir o Século de Ouro espanhol, e que faríamos de
Lautréamont? Deita-lo-íamos pela borda fora? O único crivo
verdadeiro é dado pelo tempo e, mesmo com esse, são precisos
cuidadosos apuros. O Góngora foi tido durante séculos, por uma
espécie de cesto do lixo, apto apenas para receber o que não
prestava. Até a geração de 27 o reabilitar, como ao Século de
Ouro em geral. Convém preservarmo-nos de enterros precipitados.
Quanto à
obsessão racionalista, estamos falados. O caso português, neste
aspecto, quererá dizer quiçá que ele fez o seu trabalho e
continua de certo modo vivo em poetas como Pedro Tamen e outros
até. E quem nos diz que ele não regressará? A história literária
está cheia destes retornos.
FM
Tua condição de exilado durante certo período da história
política de teu país de alguma maneira propiciou uma maior
clareza no entendimento das relações entre ambientes internos e
externos no que diz respeito a confluências estéticas e
políticas culturais. Quais afinidades eletivas entre Portugal e
Espanha sobrevivem a suas dissensões provincianas?
FE
O conflito latente entre Portugal e Espanha não o senti nunca. A
formação humanística em Portugal, o resto em Espanha tornaram-no
impraticável. Terá contribuído para isso a minha ascendência
luso-espanhola. Na literária, porém, prevalece a espanhola,
porque ali nasci para a poesia: O Século de Ouro, o teatro de
Calderón de la Barca, as gerações de 98 e 27 foram o meu terreno
de dilecção, como em Portugal o foi António Vieira.
Qual a
influência do exílio em tudo isto? Suponho que a modulação duma
língua de exílio que a península ibérica conheceu desde cedo. O
resto, o exílio político, pertence à acção cidadã e à luta pela
implantação da democracia. E fica por aí.
FM
Maria João
Reynaud observa que a matriz de tua poesia é essencialmente
hispânica. Isto reforça uma herança simbolista. O livro (ou obra
efetivamente criada) se apresenta neste caso com uma
mundificação da criação em si. Como dimensionar o abismo
entre mundificação e modificação, tanto do mundo de que
subjetivamente trata como de sua ansiedade (do criador) de
objetivar-se como parte deste mundo que julga habitar?
FE
É-o de facto. A mundificação a que se refere tem mais a
ver com Heidegger, com o projecto mallarmeano de “O LIVRO” e
mesmo com o verso de um poema de Hölderlin intitulado
“LEMBRANÇA” e citado pelo filósofo: “mas só os poetas fundam o
que permanece”. Para Mallarmé “tudo, no mundo, existe para vir
dar num livro”, sendo o livro de poemas, dado que acrescenta,
linhas depois, que esse livro deve ser “o hino, harmonia e
júbilo, como conjunto puro… das relações entre tudo”. Nele
encontraríamos, pois, essa “mundidade” do mundo ou, por outras
palavras, uma espécie de ontologia generalizada. Porquê? Porque,
segundo Mallarmé ainda, a passagem do mundo ao poema implica
“uma transposição”, não transposição de “qualidade abstraída”,
mas a “transportar” que “alguma idéia incorpora”. De aí falar-se
da “mundidade do mundo”. Noutros termos, abstrai-se a mundidade
ao mundo para o poema lha restituir intacta em si mesmo. É neste
sentido que o poema funda, como queria Hölderlin. Antes
dele o mundo não passava de uma espécie de realidade vacante,
abandonada, de certa maneira, ao curso cíclico do perecedouro
que não perdura senão na renovação constante do ciclo. A
fundação seria, assim, a passagem desse limbo de “vacância” a
poema. Poema que leva em si, e incontestável, a sua própria
evidência. A modificação ficaria a pertencer a esse ciclo de
renovação constante.
FM
Quero refletir agora sobre o que chamas de a dádiva da leitura,
este sentido de entrega que completa e dá sentido maia amplo à
criação. Este exercício espiritual naturalmente transcende o
ambiente institucional de qualquer religião. Como observas o
tema?
FE
Miguel Torga deu a um livro seu o título felicíssimo de "NIHIL
SIBI". Nesta perspectiva o poeta escreveria para os outros.
Tratar-se-ia de dádiva "a posteriori". Ou implícita.
Quando
falo de exercício espiritual a alusão tem um sentido analógico.
Mas seria quiçá empobrecedor esquecer que, queiramos ou não,
vivemos numa civilização cristã, embora na América Latina ela
venha imbuída de elementos originais.
FM
Esquecemos algo?
FE
Muita coisa, com certeza. Esperemos que o leitor encontre o
resto do nosso esquecimento. |