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Timor Leste – IV Feira do Livro de Díli
Joana Ruas
Agradeço
ao Dr. Roque Rodrigues, Conselheiro do Presidente da República
de Timor Leste e Prémio Nobel da Paz, Dr. José Ramos Horta e ao
Dr. Manuel Tilman, Deputado do Parlamento Nacional, a
disponibilidade para moderarem o debate que se seguirá à
apresentação das minhas obras, A Batalha das Lágrimas e Crónicas
Timorenses, respectivamente o 1º e o 2º volume de uma trilogia
intitulada A Pedra e a Folha sobre cem anos de Resistência
Timorense.
Ontem fostes hóspedes no meu país e falastes a minha língua ― o
Português. Hoje, como hóspede no vosso país, lamento o pouco sei
da vossa Língua ― o Tétum. No entanto, a primeira referência à
Língua de Timor é de um português, o boticário Tomé Pires, que
na sua obra, Suma Oriental, escrita entre 1512-1515, em Malaca,
tendo viajado à nobre Ilha de Java, em 1511, anotou: “Timor tem
Lingoa sobre si”, o que seria uma forma de assinalar que o
Malaio, que era então a língua franca do arquipélago
insulindiano, tinha ali algo que o distinguia das outras línguas
nele faladas.
A
rota que levaria os navegadores portugueses a Timor seria a que
perseguiam para o comércio das especiarias. Os Portugueses
desembarcaram em Macáçar em 1512 e aí desenvolveram o comércio
das especiarias que oriundas das Molucas ali se concentravam
antes de serem redistribuídas. O reino de Macáçar toma este nome
sob influência europeia no século XVII. Trata-se oficialmente do
Reino de Gowa, formado no século XIV pela reunião de nove
comunidades aldeãs situadas a sudeste da cidade de Macáçar. Esta
cidade chamou-se depois, Ujung Pandang, nome que tomou do bairro
que no século XVII era o dos sultões.
Foi
capitão das Molucas e governador do Forte de São João Baptista
de Ternate, de 1536 a 1540, o cronista António Galvão, autor do
“Tratado sobre os diversos e desvairados caminhos por onde nos
tempos passados a pimenta e especiarias veio das Índias às
nossas partes”. Neste Tratado, António Galvão refere que António
de Abreu fez seu caminho de regresso para Malaca deixando
descoberto todo aquele mar e terra nomeada.
Quando os primeiros navegadores portugueses chefiados por
António de Abreu chegaram a Lifau, os reinos ali existentes eram
tutelados pelo rei de Macáçar. Criados por Afonso de Albuquerque
com o propósito de estabelecerem uma ponte com as comunidades
locais, os chamados casados desligavam-se do estatuto de
soldados e armavam os seus próprios navios. Foram esses soldados
e navegadores portugueses de Malaca e Macau, que casados com
mulheres timorenses, deram origem aos luso-descendentes, então
chamados Topasses, vocábulo oriundo do dravidiano e que
significa intérprete ou língua.
A
partir de 1603, os Macáçares e Bugis convertidos ao Islamismo
começaram a atacar as costas de Timor, razão pela qual a Rainha
Mena, que se tinha convertido ao Cristianismo, pediu a protecção
da Coroa Portuguesa, selando um pacto de amizade e aliança com
os portugueses ali representados pelo frei dominicano António de
São Jacinto. Os luso-descendentes, tendo-se dedicado ao comércio
do sândalo, pela distância a que se achavam de Portugal, de
Macau, de Goa ou mesmo de Malaca, organizaram-se militar e
administrativamente do que resultou um permanente conflito de
interesses que ao longo dos séculos os opôs à Coroa Portuguesa e
Holandesa.
Segundo alguns historiadores ocidentais, Timor estaria incluído
entre as quinze dependências dos reinos de Kediri e Singasari,
no século XII, vassalagem que se estendeu até ao século XIV
quando em Java reinava o reino hinduísta de Mojopahit
(1293-1520) que viu aparecer o Islão no século XV, com Malik
Ibrahim. O reino budista de Srivijaya, estabelecido em Sumatra
no século XII, foi a primeira unidade política importante com
conexão em Nusantara, nome oriundo do sânscrito e que significa
arquipélago. Contudo, Timor não figura entre os reinos vassalos
de Srivijaya. Srivijaya e Mojopahit foram evocados por Sukarno
no seu famoso pancasila ou cinco princípios do Estado enunciados
no seu discurso de 1 de Junho de 1945, para afirmar que a
Indonésia era tal como existia no tempo dos reinos de Srivijaya
e Mojopahit. Timor também não foi mencionado na declaração
formal de independência em Agosto de 1945, nem nenhuma aspiração
à sua incorporação foi expressamente admitida pela Indonésia, em
1950 e 60.
Estudos mais recentes, efectuados a partir do estudo comparativo
das Línguas, colocam a hipótese da influência hinduísta presente
em Timor ter ali chegado a partir de Macáçar. R.F. Mills, em
1975, na sua obra sobre as línguas dos diferentes grupos desta
península, mostra que estas são derivadas de uma língua que ele
chama Proto Sul-Sulawesi, do grupo étnico dos Bugis e intitulada
Reconsctrution of Proto-South Sulawesi. Esta pequena dissertação
vai ao encontro daquela afirmação de Tomé Pires de que Timor
havia muito que tinha Língua sobre si.
Os
Bugis praticavam a cabotagem entre as diferentes ilhas nos seus
praos com balanceiros semelhantes aos dos beiros timorenses.
Sulawesi sofreu migrações sucessivas do continente asiático, de
proto – malaios, de invasores oriundos da China que trouxeram a
cultura do arroz, a domesticação dos animais, o trabalho dos
metais e as agulhas de coser roupa, introduzindo ali a roupa
cosida a agulha e linha. A indianização do arquipélago de
Sulawesi, então conhecido como ilha dos Celebes, começa no
século V, e deve-se-lhe a aparição do kriss de punho esculpido,
a arte do batik e a adopção do Budismo pela classe nobre.
Segundo os testemunhos do Jesuíta, Padre Alexandre de Rhodes ,
que passou oito meses em Macáçar, de Outubro de 1646 a Junho de
1647 e de Nicolas Gervaise, autor de uma Description Historique
du Royaume de Macassar, escrita nos últimos anos do século XVII,
quando os Portugueses ali desembarcaram encontraram um soberano
rodeado de uma aristocracia budista.
Encontro-me num jovem país com um relevante mapa de várias
línguas locais faladas cujos encantos permanecem para nós
obscuros. A língua guardam-na os povos como quem guarda um
afecto e cada língua vive a sua vida intensa num simples poema.
Recordo que os judeus sefarditas, mesmo séculos depois da sua
expulsão da Península Ibérica, na Bulgária ou na Turquia, como
nos conta o Prémio Nobel de Literatura, Elias Canetti, onde quer
que estivessem, falavam o ladino nas suas comunidades. Muitas
vezes me perguntei em que língua sonhava cada um dos Timorenses
na diáspora e se o Tétum não seria a língua em que viviam o
pesadelo das suas vidas marcadas pela dor da separação, e se não
seria igualmente a língua em que se amavam, a língua em que
partilhavam a mesma condição de timorenses na diáspora. Tal como
as gentes timores, também o Tétum sofreu o mesmo estado de sem
poder, sem defesa, a mesma vulnerabilidade do homem, da mulher e
da criança. Sobre essa forma de vulnerabilidade de uma Língua,
temos o testemunho do filósofo Teodoro Adorno que sofreu a dura
experiência do exílio devido ao nazismo. Adorno escreveu: “Como
se fosse um eco, a linguagem reenviava-me a humilhação que a
adversidade me infligia, ao esquecer aquilo em que eu me tinha
tornado.”
Emocionei-me pois, ao ler o que Sua Ex.ª, o Primeiro-ministro da
RDTL afirmou na sua conferência de 5 de Agosto deste ano, no 1º
Encontro das Línguas de Timor-Leste. Num dado passo referiu que
em Tétum se diz Dalen oi-oin, Povu Deit Ida, isto é, Timor –
Leste tem muitas Línguas mas um só Povo. A palavra Povu, um
préstamo do Português, é, desde logo, uma instituição
linguística que lhe ficou de um legado histórico. O Tétum possui
uma palavra para gente – ema. Mas o vocábulo ema,
embora também signifique multidão, não reflecte com justeza a
nova realidade sociológica marcada pela diversidade dos povos e
ancorada na tradição universalista do modelo político
republicano. A nação precisava de uma palavra que reflectisse
não só a totalidade dos seus povos como também o processo da
formação da sua nacionalidade e esse processo histórico está por
inteiro no vocábulo Povu. Povu é, pois, uma palavra-chave que
conduz directamente ao conceito de soberania nacional e na noção
de povo está subjacente um carácter de direito positivo com
consequências jurídicas e constitucionais. A palavra Povu
reflecte o passo gigantesco dado por uma pequena nação para a
sua entrada no concerto das nações. O povo de Timor Leste passou
do estado natural ao estado civil e esse momento foi celebrado
quando proclamou a 28 de Novembro de 1975, a independência. Não
havia então tempo para a compreensão de como se tinham tornado
timorenses tal como eram naquele momento, mas de determinar de
que modo o estado civil poderia não mais ser regido pela
servidão. Nesse acto, a família natural, necessária e precária
dentro do conceito plural contido no vocábulo ema, foi
substituído pelo de família social, a família social inscrita no
devir da própria nação. O vocábulo ema contém em si o
sentido de multidão mas apenas como conjunto de indivíduos sem
unidade e sem existência política. Na palavra povo, pelo
contrário, surge o conceito de um corpo ao qual se pode atribuir
uma única vontade e uma acção própria porque no Estado é o povo
que reina . O acto pelo qual um povo é um povo não é um acto
separado, histórico e factual, tem que ser um acto inscrito na
vontade comum. Todo o acto de vontade geral toma a forma do
contrato , o que implica que todos participem no voto e é esta
participação que preenche a cláusula da necessária unanimidade.
A vontade geral manifestou-se, pela primeira vez na história de
Timor Leste, no acto fundador do Referendo de 1999.
Ao
longo dos séculos de administração portuguesa não se descurou o
problema da língua. O uso do Tétum era encarado nos meios
progressistas como um importante instrumento de centralização e
de laicização da justiça e do estado civil. Havia a noção de que
o desenvolvimento do conhecimento das línguas e sobretudo dos
vernáculos fortificava a relação entre os povos e as suas
línguas naturais. Ciosa do seu lugar na sociedade, a Igreja,
mais do que o Poder dominante do Estado e da sua administração ,
ao dedicar-se ao estudo das línguas ajudou à consolidação do
Tétum, tendo desde logo assegurado a sua transcrição latina.
Gonçalves Viana, no prefácio ao Diccionario de Teto-Português de
Raphael das Dores, publicado em 1907 em Lisboa pela Imprensa
Nacional, afirma, pela primeira vez, a necessidade dos
funcionários públicos se habilitarem ao conhecimento de alguns
idiomas vernáculos desses povos, referindo o labor dos
religiosos, nomeadamente o dos padres da Companhia de Jesus que
durante os séculos XVII e XVIII, produziram obras relativas a
línguas asiáticas e americanas. Lamentando o muito pouco que os
portugueses têm concorrido para o indispensável conhecimento dos
idiomas dos povos sujeitos ao nosso domínio, Gonçalves Viana
refere ainda a complementaridade deste dicionário com o do padre
Sebastião Aparício da Silva, o Diccionario Português - Tétum.
Acentua igualmente a pertença do Tétum à família do que ele
chama de Malaio costeiro. Raphael das Dores serviu-se dos
apontamentos do padre goês, Luís Xavier de Mesquita que
enobreceu o Tétum ao fornecer-lhe os instrumentos tecnológicos
indispensáveis à sua estabilização e que são a gramática, a
ortografia e a transcrição latina. Porque a língua é um laço de
família, nela repercute o canto heróico das acções dos
antepassados e a voz que escapa dos túmulos. Encarada como o
tesouro cultural das gerações futuras, exige a transmissão, pela
instrução e pela educação, dos cantares que ouviram aos pais e
às mães, as narrativas das acções heróicas dos antepassados, a
sua história e poesia, a sua sabedoria, os seus jogos e danças.
Em meu entender haverá durante um tempo indeterminado, uma
dicotomia entre a pluralidade dos vernáculos servindo a
linguagem oral da vida comum e a unidade proporcionada pelo
português escrito e posto ao serviço do saber letrado e do Poder
político .
Porque a língua é mais que um território geográfico, a Língua,
como genialmente o formulou Fernando Pessoa, a Língua é uma
Pátria e uma Pátria define-se através da sua situação no mundo,
o que engloba o seu passado longínquo e próximo, uma Pátria
projecta-se através das ligações que estabelece no presente com
a Relação planetária, Relação que inaugura uma era de paz entre
todos os povos sobreviventes. Recordo aqui que o texto da
Proclamação da Independência de 28 de Novembro de 1975, assim
como o texto da 1ª Constituição da República Democrática de
Timor Leste foram escritas em Português. O texto da proclamação
da Independência foi na Indonésia redigido em indonésio enquanto
aqui, foi-o em português, o que é imensamente relevante para a
compreensão da diferença entre as estruturas sociopolíticas
existentes nos dois países. Neste contexto é de ter em conta o
peso que as línguas estrangeiras tiveram na formação do modo de
pensamento dos intelectuais timorenses comparativamente com os
intelectuais indonésios que lutaram pela independência. No que
ao caso português se refere, no domínio do modo de pensamento ,
podemos referir os poetas e escritores que se exprimiram em
português e que com os outros povos da CPLP se relacionaram
durante cerca de 5 séculos. A Língua oficial ficou assim
subordinada ao interesse essencialmente político da nação,
realçando-se que se é o povo que constituiu a nação, contudo, é
o povo maioritário que constitui a democracia. O ethnos
constitui neste processo o demos cidadão, enquanto o povo
maioritário, funda o demos social.
E
como a questão da Literatura é indissociável da questão da
Língua e das suas instituições, perdoem-me, pois, por nesta
amena conversa sobre o meu romance histórico, A Batalha das
Lágrimas e sobre Crónicas Timorenses, saudar e agradecer a vossa
presença na minha língua, o Português, Língua oficial de Timor
Leste, Língua de Relação com o espaço fraterno e amplo dos
países da CPLP.
Perguntar-vos-eis donde me veio o impulso para me abalançar a
uma obra desta envergadura. Uma das minhas motivações deve-se
aos relatos dos sobreviventes do holocausto nazi que me
ensinaram que há um longo intervalo de tempo entre o momento em
que se estabelece a paz e o surgimento de memórias de guerra,
pois a memória de todos os que sofreram as penas da guerra, do
exílio e da opressão, precisa de se reconstruir. Para que essa
reconstrução se possa transmitir de forma autêntica na
escritura, o autor passa por um processo de reconstituição da
sua experiência que se inicia partindo do esquecimento salutar
de tudo o que viveu até alcançar a recordação salutar que lhe
permitirá então a superação do que de doloroso foi vivido.
Consciente deste processo, achando-se o território de Timor
Leste fechado ao exterior, decidi-me a investigar o que estava
ao meu alcance, isto é, toda a matéria histórica acumulada nas
bibliotecas e arquivos portugueses. À medida que eu ia avançando
pelos fios que me iam conduzindo, deparava com grandes lacunas
no que se referia ao outro lado, ao lado rebelde, ao lado
timorense. Isso levou-me a consultar e pesquisar outro tipo de
documentação: os boletins militares e coloniais, os jornais, os
jornais publicados pelo Exército, os jornais publicados nas
colónias e, no caso de Timor Leste, o que se tinha escrito em
Goa e em Macau. Socorri-me
ainda da informação oral de timorenses como a que me foi dada
pelo saudoso professor Fernando Sylvan, para,
objectivamente, desarmar a História, dando a versão de ambas as
partes envolvidas. Com esta iniciativa creio ter contribuído
para emancipar a razão histórica quer da autoridade colonial
quer da autoridade eclesiástica pondo fim ao dogmatismo de
ambas. Muita documentação arquivada estava em mau estado de
conservação, cheia de humidades ou desfazendo-se e havia de onde
em onde preciosas páginas arrancadas à verdade histórica.
Contudo, aqui e ali, surgia o rosto dessas figuras destinadas a
ficarem soterradas no pó dos séculos. Arranquei aos relatórios
militares, um a um, os personagens do romance A Batalha das
Lágrimas que é histórico porque nele se assiste à interacção
dialéctica dos destinos individuais e da História. Ao longo da
minha investigação, algumas figuras de portugueses e de
timorenses foram-se-me impondo, quer porque estes autores os
consideravam heróis nacionais, fossem portugueses, goeses ou
timorenses, quer porque sendo gente obscura acedeu à História
por infracção, isto é, as suas vidas cruzaram-se com o Poder,
passando a fazer parte dessa pluralidade de vozes que se perdem
no tempo, nos “sem nome” de que nos fala Elias Canetti, nos
vastos e anónimos como os definiu Rilke ou os infames como os
descreveu Michel Foucault quando os encontrou: “Vidas breves,
achadas a esmo em livros e documentos”, como ele as define em
La Vie des Hommes Infâmes. Um desses personagens,
a rainha Margarida, atravessou mais de cem anos de silêncio até
que eu a desenterrei do pó do olvido para revelar para a
posteridade o rosto de uma mulher
com um destino muito forte e numa época de declínio dos impérios
europeus.
Reconstituir
a história dos vencidos através dos relatos dos seus vencedores
é um quebra-cabeças. Os nomes têm por vezes 3 e 4 grafias
diferentes, surgem-nos ao acaso ou de relance num episódio de
guerra, o que acontece sobretudo com as mulheres a quem
raramente são fixados os nomes. Com uma excepção de vulto: a
rainha de Cová, D. Margarida Ribeiro Pires. Uma vida para ser
lida, como diria o genial escritor brasileiro, meu João
Guimarães Rosa.
A Batalha das Lágrimas e Crónicas Timorenses surgem , como
tantos outros frutos, do amplo esforço colectivo de quantos em
Portugal, no Brasil e restantes países da CPLP se empenharam na
Causa da Libertação do Povo de Timor Leste. Há uma expressão
portuguesa que se não acha em língua alguma conhecida e que
causando-me desde sempre uma grande perplexidade, sobre ela
meditei longas horas. Ei-la: passar pelas brasas. Esta típica
expressão portuguesa significa dormir durante o dia, isto é,
cair num sono breve ao acaso das horas e das rotinas. A esse
adormecimento espontâneo e diurno, chamámo-lo passagem pelas
brasas. Passagem do adormecido desde a sua latente e obscura
região inconsciente, pela luz do dia, ou podemos entendê-la como
a queda do adormecido nas profundezas de um sono encarado como
um abismo momentâneo cujo fundo seria rubro como o fogo. Passar
pelas brasas é assim uma alusão bem portuguesa a um sono
passageiro, viajante nocturno pelas brasas do dia, sono sem
peso, sombra fugitiva e ligeira caindo sobre a rotina. Também no
que toca às causas nobres acontece que as abraçamos como se
adormecidos passássemos sobre um fundo de brasas que tocamos
levemente, qual vento sobre o tumulto humano gerado pelo
sofrimento e pela morte. Não aconteceu assim com a Causa da
Libertação do Povo de Timor-Leste. Nesta causa, não a acolhemos
como se passássemos pelas brasas da sua tragédia, pelo
contrário, empenhámo-nos a fundo, o que constituiu algo de novo
na nossa história colectiva.
Tendo em conta as análises historiográficas, à excepção da
revolução de 1383, ao longo da História de Portugal, a presença
das camadas populares nas transformações político-sociais
decorria apenas da acção política e dos agentes sociais. A
partir do 25 de Abril, esbateram-se as fronteiras entre a
cultura popular e a cultura erudita, a circulação de ideias
ganhou fluidez, compartilharam-se práticas. O resgate do povo de
Timor Leste galvanizou o Portugal democrático sem que, no
entanto, nos empenhássemos no conhecimento da sua
especificidade. Escritas no fio da navalha de acontecimentos
ferozes que chegavam até nós pormenorizadamente narrados nos
órgãos de comunicação social e de que também tomávamos
conhecimento através do nosso convívio com os timorenses, estas
duas obras, criadas no contexto de uma tragédia, estavam sempre
à beira de se tornarem numa espécie de utopia naufragada. Se a
causa do Povo de Timor-Leste se afundasse, os meus livros
perdiam o sentido e esfumar-se-iam no horizonte do Tempo. Se o
povo de Timor Leste perdesse o seu lugar no mundo como nação,
estaria condenado à dispersão, acabando por desaparecer, como
aconteceu à maioria dos povos do Pacífico e toda a corrente
solidária apegada à causa da sua libertação mais não seria do
que um epifenómeno cultural ligado a uma minoria irredentista
como muitos nos chamavam na comunicação social. Irredentista
significa aquele que depois de uma luta inglória não foi
resgatado.
Quanto ao clima moral e social da época, em A Batalha das
Lágrimas, dei-o socorrendo-me de um personagem brasileiro, João
Maurício, e de escritores como Conrad, Rimbaud, Venceslau de
Moraes, Camilo Pessanha, Stevenson, sem esquecer a referência à
Campanha de Canudos que terminou em 1897, e que nos foi relatada
em Sertões por Euclides da Cunha, um escritor que o Brasil
projectou para o século XXI com toda a justiça.
Para
um escritor, uma obra publicada é um ponto de chegada e, ao
mesmo tempo, um ponto de partida. Esse ponto de partida também o
é para a obra que vai , desde logo, em busca da sua existência
futura. E aqui estamos, autora e obra, aptos para o despertar
para um mundo exterior novo, esse espaço onde convivem autor,
obra e leitores, para o aberto do não caminho, como lhe chamou
Rainer Maria Rilke.
Abordei Crónicas Timorenses, o segundo volume da trilogia A
Pedra e a Folha, ainda antes de ter iniciado a investigação que
me levaria ao primeiro volume, A Batalha das Lágrimas. Tinha
entre mãos as fontes escritas e tinha ainda as que me haviam
sido fornecidas e que pertenciam à tradição oral tal como me
havia sido transmitida quando da minha estada em Timor Leste, em
meados dos anos sessenta, e depois reiterada pelo professor
Fernando Sylvan, querido amigo e querido poeta, que na
dedicatória dos livros que me ofereceu, os dedicava a uma
luso-timorense.
A
análise desse material levou-me à conclusão de que uma vez
concretizada a unificação administrativa do território, em
finais do século XIX, Timor Leste, embora tenha continuado a
estar administrativamente dividido em reinos, esses reinos eram
assim chamados formalmente pois os seus reis haviam deixado de
ser vassalos do rei de Portugal para serem apenas súbditos, não
sendo os seus reinos nem já independentes nem mesmo autónomos
como acontecia até então. Apenas um, Manufhai, ousava ainda
proclamar a sua independência face ao poder central. Tentei
descrever a queda do bastião de Manufahi em O
Cofre e a Espada tendo por guia base a obra do oficial da
Armada, Jaime do Inso , intitulada, Timor-1912.
Ao observar atentamente as mudanças introduzidas na realidade
sociocultural de Timor Leste, constatei então que a construção
erguida durante séculos pela política de casados de Afonso de
Albuquerque e mais tarde reforçada pela luta contra os
Holandeses levada a cabo sobretudo pelos governadores
pernambucanos, ruíra com as guerras de pacificação do
território. Os governadores pernambucanos tinham implantado em
Timor Leste uma estrutura político-militar, tornando os liurais,
fossem homens ou mulheres, coronéis do Exército Português, tal
como se havia feito no Brasil aquando das guerras contra o
domínio holandês em Pernambuco, guerras que devido à implantação
dessa estrutura político-militar, contou com a participação
activa de escravos africanos e índios. Em Timor Leste , devido à
incorporação de soldados africanos, de maratas e de árabes
oriundos de Goa, achamos uma similitude com a base social
existente no Brasil de finais do século XVII.
Para
um observador externo, a existência colectiva do povo timorense
tinha sofrido uma descontinuidade, pois uma vez vencido na
guerra de Manufhai, os episódios novos que viria a sofrer já não
eram um prolongamento dos antigos. A Europa fora abalada pela 1ª
Guerra Mundial na sequência da qual caíram três impérios: o
Império Turco – Otomano, o Império Alemão e o Império
Austro-Húngaro. E ainda na primeira metade do século XX eclode a
2ª Guerra Mundial e, nesta conjuntura forma-se o Eixo Roma –
Berlim – Tóquio, ficando então os povos de Timor envolvidos na
Guerra do Pacífico na sequência da invasão nipónica . Resumi na
crónica intitulada Folhas soltas no bosque, um episódio
que decorre no rescaldo da retirada nipónica de Timor no
contexto da Guerra do Pacífico, em Agosto de 1945. Toda a acção
deste conto baseia-se nas informações contidas no livro Funo
― A Guerra em Timor de Carlos Cal Brandão.
Ao pesar o material que tinha entre mãos, havia ainda matéria
para uma crónica que por razões de estrutura narrativa, tinha
ficado fora do romance A Batalha das Lágrimas cuja acção tem
início em 1894 . Refiro-me à Crónica sobre D. Manuel dos
Remédios cujos factos ocorreram entre 1873 e 1881 . Na última
crónica, Ai Funan Mutin, recriei a atmosfera social e política
de meados dos anos sessenta, dando relevo ao que se estava
passando na vizinha Indonésia, e as consequentes repercussões
detectadas no território devidas aos massacres de 1965, levados
a cabo contra o PKI e seus simpatizantes pelas milícias do
Nahdatul Ulama e pelo PNI , enquadrados pelas Forças Armadas
Indonésias. Perante estes novos dados da realidade histórica com
fortes repercussões no modo como os povos passaram a sentir a
densidade do tempo e a fragilidade de que se reveste a
existência humana, olhei para o material que tinha entre mãos.
Fixar a história destes povos na sua longa e perigosa marcha é
extremamente difícil. Uma das razões pode ser aduzida do facto
da sua vida colectiva não possuir a característica ocidental da
circularidade imutável, em que mesmo com retrocessos se processa
uma continuidade na vivência histórica. Na verdade, havia já
factores de coesão que se viriam a manifestar na Resistência ao
invasor indonésio e que paradoxalmente surgiu no território na
sequência da invasão nipónica através de uma corrente
nacionalista que estava sintonizada com os nacionalistas
indonésios liderados por Sukarno.
Nas fontes portuguesas que acabei de enunciar, não se verifica
já a dispersão das fontes e dos documentos que estão na base do
primeiro volume, A Batalha das Lágrimas. Ora esta concentração
resulta da racionalidade imposta pela mudança de estatuto da
colónia. Na documentação que esteve na base do 1 volume, à
medida que li todos aqueles livros, relatórios militares,
documentação avulsa e notícias dos jornais, os personagens
foram-se-me impondo, quer porque os autores desses documentos os
consideravam heróis nacionais, fossem portugueses, goeses ou
timorenses. Depois da pacificação do território, como lhe chamou
Celestino da Silva, tudo passou a ser diferente aos olhares dos
observadores, militares e administrativos que relataram os
acontecimentos havidos no século XX, em vésperas da 1ª Guerra
Mundial: à excepção de D. Boaventura de Manufhai, poucos foram
os nomes de timorenses a mereceram a imortalidade de um registo
para a História.
Sobre a disparidade que ambas as obras apresentam quanto à sua
forma literária tenho a dizer o seguinte: há uma dinâmica obra
/autor que preside ao nascimento das formas. A narrativa de A
Batalha das Lágrimas, ergue-se sobre a destruição da guerra
levada a cabo em Timor Leste , como aliás acontecia noutras
regiões do planeta, em finais do século XIX, pelas potências
colonizadoras com o objectivo de alcançarem o definitivo domínio
dos seus territórios ultramarinos, tal como foi exigido na
Conferência de Berlim que se iniciou em 1884 e que durou até
1885. Em A Batalha das Lágrimas, o estilo é contínuo, um estilo
próprio do romance do género do meu e que é natural em quem
escreve para os outros. Um romance longo é esmagador pois o
estilo contínuo não se compadece com as fadigas do corpo nem com
as necessidades do espírito. O texto, essa malha cerrada, é
urdida entre movimentos e impulsos próprios da criação e do
repouso, um repouso que para o autor visa ganhar o fôlego
necessário para encetar um novo voo em relação a um personagem
ou ao desenrolar de uma situação.
Em A Batalha
das Lágrimas não me socorri de uma clarificação retrospectiva no
que se refere à subversão da perspectiva histórica que a maioria
dos portugueses terá sobre o relacionamento entre Portugal e a
sua ex-colónia, Timor-Leste. Essa clarificação, se a tivesse
introduzido no romance, iria inflectir a realidade, quer dos
acontecimentos quer dos personagens, pois os personagens
principais são figuras históricas e os acontecimentos tiveram de
facto lugar qualquer que seja a óptica através da qual são
historicamente percebidos. Todos os personagens viveram em carne
e osso, num determinado tempo e num determinado espaço.
Quanto à forma que a narrativa histórica tomou em Crónicas
Timorenses, percorrendo as obras de quantos escritores meus
conhecidos me precederam no cosmos da ancestralidade literária,
encontrei um escritor que, tendo amado profundamente a Itália
como eu amei profundamente o povo de Timor Leste, baseado em
fontes escritas e da tradição oral, escreveu alguns contos que
devido a essa soma de fontes diversificadas , escritas e orais,
não lhes chamou contos, mas crónicas. Refiro-me ao escritor
francês Stendhal e às suas belíssimas Crónicas Italianas. Havia
ainda que ponderar que na cultura ocidental há uma oposição
entre o oral e o escrito. Nas culturas orientais essa oposição
não existe. Mesmo na cultura chinesa, a oposição que existe é
entre o gesto e o discurso. Lembremos a Questão dos Ritos
Chineses, essa controvérsia que se travou nos séculos XVII e
XVIII, isto é, de 1631 a 1743, quando se iniciava a
evangelização da China. Assim, na medida em que a escrita muda a
natureza da narrativa oral, pois pelo facto de passar para a
forma escrita, o texto corta as amarras que o ligavam à
oralidade, chamei-lhes crónicas e não contos . Crónicas no
sentido dado às Crónicas Italianas de Stendhal, pela diversidade
das fontes, escritas e orais mas sobretudo pela liberdade de
invenção no tocante aos personagens mas não aos factos que se
erguem sobre fundo histórico.
Um poema é uma figura no tempo, disse Paul Valéry. O mesmo se
pode dizer das formas que a prosa assume, a figura que um dado
relato assume no espaço e que, no caso do romance se apresenta
como uma corrida de fundo. Shakespeare, sendo um autor da era
elisabetiana, foi considerado por Stendhal um romântico porque
não respeitou as leis dramáticas da unidade de tempo e de
espaço. As obras de Stevenson, Conrad, Wenceslau de Moraes e
mesmo Rimbaud e Camilo Pessanha, autores sobre cuja obra me
debrucei, saíram do cosmos da Literatura para o espaço do mundo,
seguindo a tradição iniciada pelos românticos na Europa. Logo
que o conflito, a angústia, a tensão ou a perplexidade existente
no autor se autonomizam destacando-se dele, assim que esse caos
primordial encontra a sua forma plástica, o autor pode, como
no-lo revelou Franz Kafka no seu Diário, sentar-se calmamente e
escutar, de olhos abertos o que sobre ela dizem leitores,
críticos e analistas. O autor pode escutá-los com calma porque
sabe que aquela forma que já lhe não pertence, triunfou da
confusão e do nada da não existência. O autor sabe que o que
dele se separou avançou no tempo actualizando o seu tempo
pessoal com o tempo colectivo.
Todos os povos nascem um dia, escreveu Édouard Glissant, autor
de uma Poética da Relação Mundial. Foi pois com uma alegria
imensa que assistimos à odisseia do povo de Timor-Leste que
rasgando a noite de um longo sofrimento e de uma deriva
histórica perigosa para a sua sobrevivência como povo, nos
surpreendeu a todos nós, portugueses, e ao mundo inteiro,
tornando-se a primeira nação do século XXI, Timor Loro Sae. A
sua coragem, determinação e capacidade de sofrimento e a intensa
e afectuosa solidariedade que conquistou no mundo inteiro, foram
por assim dizer as fontes de uma inspiração que de todos recebi
nesses duros tempos de horror e de esperança. A história, seja
individual ou colectiva, por intermediação de poetas e
escritores, ao ser escrita, transforma-se, através da linguagem
literária, num acto de solidariedade.
Agradeço a vossa presença e nela, saúdo o encontro de vários
oceanos culturais, do Índico ao Atlântico e ao Pacífico, do
Ocidente latino nas suas várias vozes da Europa e das Américas
assim como as vozes que do Oriente nos vão chegando. Saúdo pois
em vós o mundo distante e as vozes que se nos tornaram próximas,
enfim, saúdo em vós a aventura da Língua Portuguesa pelos
diversos universos culturais que ela abarca. Nada saberíamos
dessa aventura, desse movimento vigoroso de partilha de uma
memória total unindo o passado e o presente num centro em que
cada povo tem o seu lugar e a sua história, a sua cultura e o
seu modo de ser e de estar. Esse centro, essa plenitude, chega a
nós através de quantos se empenham numa obra literária que,
ainda sem o suporte de uma história colonial global, está
contudo a erguer as bases para uma História do Futuro. Uma
História do Futuro que contemple uma Relação Planetária baseada
nos Direitos dos Povos, na Paz e na reciprocidade de uma troca
justa. Que o planeta Terra, que tem sido castigado por uma
exploração insensata dos seus recursos, se renove no reencontro
com os seus povos e alcance com essa aliança, a sua mocidade
perdida. |