P R O J E T O   E D I T O R I A L   B A N D A   H I S P Â N I C A

 

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J O R N A L   D E   P O E S I A   |   F O R T A L E Z A l C E A R Á l B R A S I L
COORDENAÇÃO EDITORIAL   |   FLORIANO MARTINS
2001 - 2010
 

 

 

ACERVO GERAL | PORTO RICO

Manuel de la Puebla | (1930)

Manuel de la Puebla: enigmas de uma identidade cultural

Floriano Martins

FM Diz Francisco Matos Paoli: “Se algo me define é a avidez de conhecimento e o anseio de identificar verdade e beleza como enorme consumação do ser”. Quanto ao poeta Manuel de la Puebla, o que o define?

MP A inquietude pela aquisição de conhecimento foi minha paixão dominante desde os dois últimos anos de magistério; mais forte com os estudos universitários; paixão que gerou uma crise severa. Queria ler e estudar e não tinha tempo, senão o que tomava ao sono e ao recreio. Não sabia descansar (como se dá agora) nem podia fazê-lo, tão carregado como estava de horas de aula. Eu não poderia dizer, como D. Paco, que ansiava identificar a verdade e a beleza como ato de perfeccionismo; me parecia que a primeira (parcial, subjetiva) estava em minhas convicções e que não visualizava a segunda concretamente. Queria o conhecimento como instrumento de segurança intelectual. Me definia a mim mesmo como uma pessoa cheia de vazios. O vazio que sentia me sufocava; vazio cujo rancor pude apaziguar com os anos, não porque o tenha preenchido mas sim porque acabamos nos acostumando à ignorância, seja por resignação ou por fatalismo. Assim é que nada de cortar-me os cabelos alguns centímetros, como Sor Juana, para desafiar-me a mim mesmo dizendo: tenho que ver tais e quais coisas antes de voltar a crescer. Tenho muitos projetos que me incitam e mantêm ativo e essa é a única medida da inquietude.

FM Graças à nossa correspondência e intercâmbio de livros, venho conhecendo um pouco mais de teu trabalho, Manuel. Quais os projetos dos últimos anos e alguns outros que já estão programados?

MP Como a leitura e o conhecimento de Francisco Matos Paoli, o poeta maior de Porto Rico, não era tarefa fácil, pela imensidão de sua obra e a má distribuição da mesma, preparei, em 1995, uma antologia dos poemas mais significativos de sua poética, por temas. Por solicitação de Luzmaría Jiménez Faro, diretora da Editorial Torremozas, de Madri, fiz outra antologia de Julia de Burgos. Uma terceira, de José Martí, para comemorar o centenário de sua morte. Um número especial de Mairena, dedicado a Sor Juan Inés de la Cruz, comemorando o terceiro centenário, e os números monográficos de Mairena, labor inteiramente pessoal: 1) Imagem poética do Século XX, antologia temática, que contém: a poesia sobre a vida e o destino em geral; seres em solidão, estranhos na cidade, a guerra, a paz, a voz reivindicativa da mulher, poesia sobre crianças, índios, negros e marginalizados; a poesia da AIDS. 2) Ecologia e poesia, também por temas: poesia sobre a terra, a natureza, a luz, alguns elementos do habitat: a casa, as coisas, o corpo, o ar, a água, as árvores, os animais e a contaminação. Neste último caso, em vez de escolher e colocar em seção à parte os poemas sobre a contaminação pelo ruído, preferi destacar, como dom admirável, o silêncio, cujo apreço, em sua essência, é privilégio dos poetas e de pessoas muito sensíveis. 3) Outro número monográfico está constituído por uns setenta poemas à mãe. O último número da revista é uma espécie de panorâmica da poesia porto-riquenha do século XX, com vinte estudos sobre outros tantos poetas; um trabalho somente possível graças à ajuda de alguns dos mais próximos colaboradores de Mairena: Ernesto Alvarez, Javier Ciordia, Jesús Tomé, Francisco Matos Paoli, Marcos Reyes Dávila, Angel M. Encarnación, Ramón Felipe Medina e Reynaldo Marcos Padua.

FM Naturalmente que não se pode esquecer a própria dedicação à editoria da revista Mairena em si, durante vinte anos, trabalho que me parece o mais exigente, em termos de tempo e energia.

MP Assim é. Ao concluir o itinerário de Mairena estou anunciando o nascimento de outra revista, para que se inicie com o terceiro milênio, a revista Julia, exclusivamente dedicada à poesia como criação, distinta na apresentação e nas perspectivas.

FM E quais outros projetos tens em mente?

MP Uma meia dezena de capítulos sobre a poesia porto-riquenha dos últimos cinqüenta anos; uma série de ensaios sobre Sor Juana e o livro Introducción a la Ecología. Estou ajudando, além do mais, a Fredo Arias de la Canal, do México, na preparação de uma antologia da poesia cósmica porto-riquenha, em geral, e quatro individuais, em pleno processo.

FM Fernando Charry Lara , ao escrever sobre a poética de León de Greiff, refere-se à poesia como “uma experiência física da palavra, até chegar com ela a substituir a mesquinha realidade cotidiana”. Que influência acredita possua hoje a poesia no tocante a essa “realidade cotidiana”?

MP Nesta relação entre a palavra poética e a realidade, creio que é possível fazer dois grandes apartes - com numerosos graus em cada caso. Por um lado, a poesia muito elaborada, na qual a linguagem predomina sobre os temas e os assuntos; quando aquela os veste, ocultando-os, ou os murcha. É a poesia da palavra, como disse uma vez Borges referindo-se à poesia de Góngora. A poesia é um modo de ver, de sentir e de apreciar as coisas. modo subjetivo por natureza, mas que deve ser artístico pela intenção, projeção e finalidade. O importante na criação poética é conservar sempre esta consciência da face artística; nela reside o profissionalismo do poeta. A inspiração chega turva, principalmente quando é fruto do arrebatamento ou um tombo do subconsciente por uma rampa oblíqua.

Creio que a elaboração é necessária e penso que são funções da poesia aludir à realidade representada com seus meios e maneiras e transformá-la. Pessoalmente corrijo muito meus textos, suprimindo da linguagem abundante tudo o que for desnecessário; mudando os vocábulos comuns ou gastos. Mas daí à degustação das palavras, à sobrecarga esteticista (e, inclusive, à petulância de estilo), há um bom trecho. Corrigir, sim. A palavra com mesura, sem afastar-se da naturalidade, em função do que disse Juan Ramón Jiménez: “já não a toques mais, que assim é a rosa”.

No outro aparte ponho a realidade que, ainda que sórdida e cruel quando está alterada pela maldade humana, não me parece mesquinha, do ponto de vista da arte. É uma dimensão iniludível; parte integrante de nossa vida e substância. A realidade externa e a interior. E somente em uma situação extrema a fruição da palavra poderia substituí-la. Com a poesia possui muitas formas e muitos graus de relação, desde seu decalque direto e grosseiro até a idealização, o esfumado e a sublimação. O que lamento há várias décadas é que a realidade tenha se metido a atropelar e desalojar motivos e categorias espirituais; degenerando, desestilizando a linguagem, arte da poesia. O que censuro não é o relevo do realismo no poema, porque há muitas formas de nomear as coisas em sua integridade e de referir-se às peripécias humanas com suas cicatrizes. E há uma forma poética de situar-se na cotidianeidade, mas detectando “a alma oculta das coisas”, como queria González Martínez, e de empregar a linguagem familiar, porém a serviço da visão lírica, transformante. Se o emprego sábio da linguagem metafórica revela o verdadeiro poeta, também o uso da linguagem familiar, espiritualizada e sóbria, o qualifica. E esta é a diferença entre o verdadeiro poeta e os meros usuários do verso.

FM Em entrevista a Sylvia Domenech, nos diz Violeta López Suria: “Quando comecei a escrever, na década de 50, só existia o rádio. A poesia chegava através dos ouvidos. Havia poucos livros.” Creio então que as revistas foram o grande instrumento de difusão da poesia nas décadas anteriores, sobretudo da geração iniciada no período das vanguardas dos anos 20. Penso em revistas como Hostos, Vórtice e Faro. Qual a importância dessas publicações?

MP Violeta López Suria parecia ter uma vida muito recolhida, encerrada em seu pequeno mundo de livros, música e animais domésticos, porém tinha os sentidos muito abertos em relação ao entorno. Dispunha, além do mais, de uma grande sensibilidade para responder poeticamente. Entendo sua nostalgia pela década de 50, quando a poesia era uma arte auditiva, graças a difusão do rádio que fazia as vezes de um jogral. E graças aos numerosos recitais, as representações do teatro clássico, tanto quanto o teatro poético de Federico García Lorca , Alejandro Casona e Jacinto Benavente. Os poetas formavam parte do ambiente, entre eles Juan Ramón Jiménez, que ofertou ao povo de Porto Rico seu prestígio e saber poéticos, recebendo em troca simpatia, reconhecimentos e a cátedra de professor residenteda Universidade de Porto Rico. Em datas posteriores, poetas mais jovens que Violeta expressaram a mesma nostalgia, ainda que estendendo em mais de uma década  o tempo recuperado no verso; como é o caso de José Luis Vega, com Tiempo de bolero, e Andrés Castro Ríos, com Crónica escrita para ser cantada.

A seqüência da rádio, no que se refere à difusão da poesia, está nas páginas das revistas. Jesús Tomé destaca sua importância dizendo que são como o termômetro cultural de um país, no que, em parte, tem razão. Essas revistas aparecem em tempo de efervescência, de inquietude espiritual, de afirmação ou de polêmica sobre arte e literatura; não importa a vida efêmera de muitas delas. E desaparecem ou escasseiam em tempos anódinos, frívolos ou materialistas, como o que hoje nos toca viver. Em poesia, a presença das revistas hoje se sente mais necessária, já que os outros meios - rádio, TV e jornal - têm-na em esquecimento. Na década de 20, jornais como El Imparcial, Puerto Rico Ilustrado e La Democracia tinham suas páginas abertas aos poetas. Bastaria o exemplo de Evaristo Ribera Chevremont que, ao regressar da Espanha com o entusiasmo pelos movimentos de vanguarda, publica uma série de ensaios em Puerto Rico Ilustrado sobre a nova estética e dirige, em La Democracia, uma página para a difusão das novas correntes intelectuais, assim como para os poemas a elas afins. Nessa atmosfera tão propícia às letras e às artes surgem semanários como Poliedro, mensários como Los Seis, Alma Latina e Indice, e revistas de periodicidade e duração variáveis, órgãos dos distintos ismos. Faro e Vórtice, por exemplo, foram porta-vozes do Noismo, assim como Hostos, que a seguiu, as três de vida breve. O espaço das revistas era uma alternativa do oferecido pelos jornais. Quando uma cessavam, a publicação de poesia seguia nas páginas especiais ou suplementos de outras. O importante é apontar o espírito de renovação que as caracterizava, com a proclama de liberdade, o sentido de réplica aberta e inclemente à velha poética e seu tom de suficiência, humor, zombaria e ironia. O mais chamativo de seu estilo, o mais firma do afã inovador, residia na criação de imagens; nas metáforas deslumbrantes ou caprichosas que em muitas ocasiões exibiram. A meu entender, as revistas de maior duração e significado do momento foram Indice e Alma Latina. A primeira pelo sentido de aprofundamento no espírito nacional, a independência com respeito a qualquer dos ismos da época; por sua razão de ser, mais afim aos elementos unificadores que às diferentes. A importância de Indice deve ser medida no âmbito cultural porto-riquenho. Mais do que revista literária, é uma palestra; mais do que um índice, uma empresa para indagar, descobrir, afirmar e defender o mais radical e próprio, contido na história, na língua e na cultura do país.

A revista Alma Latina, ainda que de interesse geral, cumpre um papel importante na renovação literária. nela sobressaem: a atenção ao hispânico, com o desejo de comunicação entre os distintos países que constituem este conceito, e a difusão do Atalayismo - o movimento de vanguarda mais importante da Ilha - como uma categoria que define a poesia, a arte e a filosofia de vida. O interesse pela poesia adquire continuidade na seção denominada “Poetas de última moda”, depois “Antologia nudista de vanguarda”, e finalmente “Poemas novos”. Se em Alma Latina não se alcançou a imagem completa do movimento, nela, pelo menos, os poetas se moveram com comodidade e se afirmaram.

FM Seguindo a tradição das revistas literárias, nas décadas de 60 e 70, por exemplo, vamos encontrar Guajana, Mester, Palestra, Ventana, Zona: Carga y Descarga, entre outras. Quando fundaste Mairena, em 1979, tinhas já todo um ambiente muito favorável a este tipo de publicação. O que te animou a esta aventura editorial?

MP Creio que se pode falar legitimamente de uma tradição das revistas porto-riquenhas. Com respeito às anteriores, as que são agora enumeradas situam-se três décadas depois. Ou seja, se formos tentar um itinerário completo, teremos que recordar não menos de 15 revistas: umas de iniciativa privada, outras de instituições. Em conjunto, formam um espectro muito interessante da literatura porto-riquenha. Nesse período surgiram Ambito e Brújula, por exemplo, ambas nascidas em 1934, dedicadas a vários gêneros, fechadas em 1937; Insula(1941-43), que foi o órgão do movimento Integralista; Artes y Letras (1953-59), qualificada de Mensário de Cultura; Asomante (1945-70), revista da Associação de Mulheres Graduadas da Universidade de Porto Rico, dirigida por Nilita Vientós Gastón durante 25 anos, até que a Associação a destituiu por diferenças na orientação, fato que abriu caminho à revista Sin Nombre (1970), que a licenciada Vientós conduz até 1984. La Torre surgiu graças à iniciativa do reitor Jaime Benítez, em 1953, e foi reflexo dos trabalhos de pesquisa e criação da Universidade de Porto Rico, bem como de destacados intelectuais do mundo hispânico e de outras literaturas. Ainda segue sendo editada.

Nas décadas de 60 e 70, as revistas literárias são reflexo da grande efervescência política e cultural; contribuindo, ao mesmo tempo, para formar um ambiente de busca e defesa da identidade nacional, ambiente político-social-literário que ultrapassa o meramente poético.Mairena não chegou nesse momento aproveitando o florescimento prévio das publicações, mas sim, ao contrário, tratando de atenuar o vazio das mesmas. Anos antes de 1979, as revistas nomeadas e algumas mais - Prometeo, Nosostros, Visiones e Bayoán - haviam silenciado. Me pareceu urgente, portanto, a necessidade de criar um espaço para a poesia como criação; o mesmo em relação à crítica poética.

Até meados dos anos 60 se repetia que a literatura porto-riquenha estava em crise, exceto a poesia, considerada sempre como o gênero mais sobressalente em quantidade e qualidade. Agora éramos testemunhos do crescimento, do ensaio e do teatro. O boom literário hispano-americano tomou o interesse geral de editores e leitores e a atenção particular de professores e críticos. Os escritores porto-riquenhos somaram-se à evolução e ao êxito, enquanto que a poesia, em termos de leitores, críticos e recepção editorial, foi marginalizada. O ambiente não lhe era favorável. E isso mesmo tornava mais necessária uma publicação para por a poesia no lugar que lhe correspondia. Porque pior do que a marginalização por causa do sucesso dos outros gêneros, era desalojá-la da vida por força destrutora do materialismo rampante. Era necessário oferecer uma frente de reivindicação; mostrar a poesia como um valor em si mesma, uma mostra do espírito; digna, como tal, de todo respeito e simpatia. Mairena tinha que dar esse testemunho.

Se algum vez disse (no Congresso Internacional de Poetas de Madri, em 1982, por exemplo) “que havia que recuperar o antigo esplendor da poesia”, pensava mais no resgate dos leitores do que na modificação intrínseca da poesia. por isso, desde o primeiro número venho repetindo que “Mairena é uma revista dedicada exclusivamente à poesia - criação e crítica -, mas não precisamente para poetas e especialistas”. Mairena saía em busca dos leitores abandonados pelos poetas - desde as escolas de vanguarda -, os poetas puros, os de poesia hermética ou os outros da linguagem surrealista, caótica ou ilegível.

Pessoalmente sempre entendi que devem existir todas essas variantes da poesia. os poetas, revistas e livros de avançada; exploradores e experimentadores. Mas, por consideração aos leitores, a atitude vanguardista não entrava na mira de Mairena. A revista era, por outro lado, uma publicação de projeções universais, no tempo e no espaço; animada por um espírito de simplicidade, propício para criar o ambiente de convivência. Nesta mesma projeção, não quis se submeter a ideais nem a programas políticos; com isto assumindo uma postura que hoje nos parece muito fácil, mas que não o era em 1979, no espaço densamente politizado.

Era também urgente, além da criação do espaço para a poesia e os poetas, a mobilização; estendê-la dentro de Porto Rico e levá-la para além de suas praias. Dar a conhecer a poesia porto-riquenha no mundo hispânico, estabelecendo através dela um intercâmbio de conhecimento e amizade. Na saída, havia também uma vontade de serviço.

FM O “Editorial” do n° 2 de Guajana (1966) afirma: “Criar em Porto Rico é mais do que somente criar. Aqui significa alimentar a cultura nacional, que resiste heroicamente à acometida do poderio estrangeiro em todas as suas manifestações.” O que resultou a partir de então foi um panfletarismo redutor, uma submissão da arte ao mero enfoque político. Até que ponto Guajana não teria significado um retrocesso no tocante às conquistas do movimento transcendentalista da década anterior?

MP Ainda que a poesia porto-riquenha tenha seguido ao lado da poesia hispano-americana, nas mudanças temáticas e nas evoluções intrínsecas da mesma, pare entender a atitude crítica dos poetas há que se ter em conta também a situação política, especial, da ilha, que marca todas as formas de sua cultura. os então jovens poetas agrupados em torno da revistaGuajana (em uma mesma linha de tomada de consciência e compromisso que os de Mester ePalestra), evoluíram rapidamente até uma militância radical, evidenciada nos -poemas e nos artigos editoriais. Assumiram, como primeira função da revista, a criação de uma frente de luta patriótica, para defender e acrescentar a cultura porto-riquenha. E, à parte de que a década de 60, época de agitação política e social, e de que o ambiente geral contestatório do ocidente era propício para despertar a poesia política, os porto-riquenhos tinham exemplos muito próximos entre seus poetas: o de José de Diego, de começos do século, a quem eles haviam homenageado com um número especial da revista, implicava um compromisso com a história, e o exemplo dos poetas - vivos ainda - perseguidos e presos pela afirmação de seus ideais independentistas: Juan Antonio Corrétjer, Francisco Matos Paoli, Clemente Soto Vélez e José Enamorado Cuesta. Como modelo foi também Hugo Margenat, que, ao falecer prematuramente aos 23 anos, em 1957, com uma obra madura e incitante, se converte no precursor do movimento.

Causas externas e motivos mais próximos inspiram esta poesia: a revolução cubana; os movimentos de emancipação econômica dos países hispano-americanos; a intervenção dos mariners estadunidenses em Santo Domingo; a guerra do Vietnã; a morte de Pedro Albizu Campos, fundador do Partido Nacionalista Porto-riquenho; a celebração do plebiscito sobre o status em 1967 e a comemoração do centenário da Revolução de Lares em 1968; a penetração da doutrina marxista nas artes, nas letras e nos programas sociais. A estas motivações deveríamos acrescentar outras igualmente estimulantes: as lutas universitárias e os conflitos com o serviço militar obrigatório; a captação do imediatismo deprimente: a falta de consciência na cidadania, a carência de ideais superiores, a indiferença; o conformismo, a busca e apego às vantagens materiais; o preconceito racial e a injustiça.

Assim se entende a preocupação  dos editoriais das revistas e o sentido que os poetas imprimem à poesia. criar, para eles, era sustentar a cultura como um modo de ser do indivíduo e da nação; a obrigação de meter-se na defesa dos riscos que identificam a todos como porto-riquenhos; na defesa da cultura assediada por muitos flancos.

Para eles, como para Gabriel Celaya, a poesia é “uma arma carregada de futuro”. Consideram-na como uma palestra. Como o lugar em que se pode dar batalha contra o que chamam ironicamente de “as três divinas pessoas da poesia colonizada porto-riquenha”: o idealismo, a alienação e a metafísica. Querem desmitificar, situar o poeta na rua, na vida cotidiana e popular. Crêem no amor. Valorizam a tradição. Pretendem ser fiéis a seu tempo e querem descobrir a verdade histórica para então realizá-la. O único caso - observam - é que a rosa está chamuscada de pólvora e cheira a sangue, e isso determina sua poética.

Assim se entende também a ênfase que se dá ao conteúdo, ao sentido coletivo da voz, a tom de denúncia ou de crítica e à agressividade da linguagem.

Submissão da arte ao enfoque político? Nem sempre. O valor artístico passa, sem dúvida, por um risco, maior do que em outras formas; risco que nem Pablo Neruda soube salvar sempre. Perigo, sim; não necessariamente rendição da substância artística, que pode se manter em diversos graus.

Por se tratar de uma forma poética distinta, creio que não se pode falar de retrocesso. O movimento transcendentalista porto-riquenho, ainda que nascido com uma atitude muito pura e serena; e ainda que seus princípios - por serem mais universais - perduraram mais tempo que os de outros movimentos poéticos, sua ressonância e influência não foram tão notórias. E se estiveram muito bem no tocante à afirmação dos valores humanísticos, no enfoque metafísico e em certo tom de angústia e desencanto, não cabiam no novo programa, idealista no político e programático no filosófico. No entanto: na história da poesia sempre se teve movimentos de ida e volta; de aproximações e choques; de grandes subidas, às vezes, até o apolíneo, e graves descidas, em outros caos. O importante é que possamos reconhecê-la em cada etapa.

FM Há uma tendência dos porto-riquenhos insulares de rejeição à poesia feita por aqueles porto-riquenhos residentes nos Estados Unidos. Entre estes menciono Manuel Ramos  Otero, uma vez que o ensaísta Rubén González, em seu excelente estudo Crónica de trés décadas(1989), situa El libro de la muerte entre “os três ou quatro livros mais importantes publicados nos anos 80 em Porto Rico”. Quais as razões da rejeição apontada acima e o que pensas acerca da poesia de Ramos Otero?

MP A poesia escrita por alguns porto-riquenhos residentes nos Estados Unidos (chegados quando ainda crianças) ou filhos de exilados porto-riquenhos, nascidos nos Estados Unidos, constitui um capítulo interessante do ponto de vista cultural, dentro do enfoque artístico literário e do sociológico. É uma poesia relativamente jovem - começa na década de 60. É conhecido pelo nome de poesia niuyorriqueña ou neoriqueña, e a grande diferença com a poesia da Ilha é a língua utilizada. Os autores deste grupo escrevem em inglês ou são bilíngües ou utilizam o spanglish. A língua utilizada é um critério fundamental, em litígio com a vontade dos que querem pertencer à comunidade porto-riquenha e o desejo de ser incorporados à sua cultura. na Ilha a aceitação dos mesmos não é unânime. Por um lado estão os que, de maneira cortante, rejeitam essa poesia; não a aceitam como um apêndice da literatura insular e nem sequer como modalidade, mesmo que admitindo que, em si mesmo, seja uma forma de sentir e expressar o porto-riquenho. Crêem que seu espaço está na literatura inglesa. René Marqués, dramaturgo, ensaísta e contista, é um exemplo desta atitude.

Contrário a este lado, se encontram os que não somente a aceitam como também a defendem, como é o caso de Pedro López-Adorno, porto-riquenho, poeta, professor universitário em Nova York, autor de um excelente livro intitulado Papiros de Babel, antologia da poesia porto-riquenha em Nova York.

Mas antes de referir-me à argumentação de defesa que faz no prólogo, como primeira questão, devo apontar que na antologia, de 54 autores, 87% - exilados quando já estavam formados - escrevem em espanhol (alguns são figuras relevantes da poesia porto-riquenha, como Clara Lair, José I. de Diego Padró, Clemente Soto Vélez, Graciany Miranda Archilla, Julia de Burgos, José Emilio González etc.). Entram na seleção simplesmente porque residiram na grande cidade. Ninguém questiona a inclusão deles na literatura nacional. É o caso de Manuel Ramos  Otero, por quem indagas, caso que vou considerar mais adiante.

López-Adorno situa os niuyorricans dentro da literatura porto-riquenha (e, por extensão, na hispano-americana) porque é uma mostra da identidade nacional no exílio, precisamente pela pluralidade social, política, econômica, cultural e lingüística. Porque, apesar dos níveis polifônicos, há um fio condutor e revelador da porto-riquenhidade. Sugere que aqueles que escrevem em inglês sejam lidos em traduções ao espanhol, tal como sucede nesta antologia (em uma seção final aparecem os poemas escritos originalmente em inglês).

O fio de identidade se adverte na liberação dos autores frente ao “impacto da transculturação, assimilação e marginalização” de que são vítimas. Sustenta o prologuista que para os que usam o espanhol, o idioma é um símbolo de resistência; enquanto que o que se expressam em inglês usam esta língua como subversão idiomática, para lutar contra os prejuízos e censuras da cultura dominante. Graças a este fio relevante, condutor da identidade, é possível a reunião destas vozes, as desta babélica experiência poética polifônica. Apoiado neste critério, López-Adorno argumenta contra o nacionalismo unidimensional e contra os que demarcam a poesia em compartimentos inflexíveis. Propõe, em troca, que sejam destacados os elementos que unem e não os que separam; como forma de minar a resistência e poderia da cultura dominante, a estadunidense; como um projeto, também, de resgatar do esquecimento a substância do ser porto-riquenho no exílio.

A imagem do imigrante porto-riquenho é geralmente associada à classe trabalhadora e pobre; aquela formada pela afluência massiva de trabalhadores porto-riquenhos aos Estados Unidos, antes da industrialização da Ilha e seu conseqüente progresso econômico; grupo acrescentado pela saída posterior de muitos outros trabalhadores, estudantes e profissionais, atraídos por razões bem diversas. Fala-se de mais de quatro milhões de porto-riquenhos nooutro lado; mais do que os que vivem na Ilha superpovoada, com uns 3,8 milhões de habitantes.

Tanto aos daqui quanto aos do outro lado lhes identifica a nostalgia e o apego sentimental ao nacional, acima de algumas marcas e matizes que os particularizam, como as influências do ambiente, com os costumes, pessoas e circunstâncias; as respostas pessoais a um meio distinto; a visão de mundo formada com distintas perspectivas.

Há um par de anos a Universidade de Porto Rico ofereceu uma série de encontros - em vários de seus recintos - com quatro escritores porto-riquenhos radicados nos Estados Unidos. Víctor Hernández Cruz, poeta e contista, autor de uma obra publicada em inglês, traduzida a quatro línguas européias, começa agora a escrever em espanhol desde seu retorno em 1989. Aclara: “nunca perdi o som e o ritmo do espanhol”. Sente-se influenciado por William Carlos Williams, filho de mãe porto-riquenha, um poeta que originou uma mudança notável na poesia estadunidense. Hernández Cruz diz com humor que está como no limbo; não é aceito em Porto Rico por escrever em inglês, nem é poete estadunidense por não estar radicado nos Estados Unidos.

A obra de Tato Laviera é a mais tipicamente niuyorrican, para não dizer excêntrica. Mescla cinco modalidades lingüísticas: inglês, espanhol, spanglish, a forma bilíngüe e o mixturao. Seu poema “Niuyorrican” aclara a luta contra a rejeição e o caráter oral da poesia.

Luto por ti Porto Rico, sabes. Defendo-me por teu nome, sabes. Entro em tua ilha, me sinto alheio, sabes. Entro para buscar mais e mais, sabes. Mas tu com tuas calúnias me negas teu sorriso, me sinto mal, distinto, eu sou teu filho, de uma migração pecado forçado. Mandaste-me nascer nativo em outras terras porque éramos pobres, porque tu querias te esvaziar de tua gente pobre. E agora regresso com um coração boricua, e tu me desprezas, me vês mal, atacas minha fala enquanto comes McDonald's em discotecas americanas. E eu não pude dançar a salsa em San Juan , a que danço em meu Bairro cheio de todos os teus costumes. Assim é que se tu não me queres, tenho um Porto Rico saborosíssimo onde buscar refúgio em Nova York e em muitas outras ruelas que honram tua presença preservando todos teus valores, assim que, por favor, não me faças sofrer, sabes.

Judith Cofer Ortiz é o exemplo de uma escritora nascida na Ilha e criada nos Estados Unidos que deve a essência da porto-riquenhidade à sua mãe, segundo esclarece. É poeta, contista e professora universitária, autora de obras bem difundidas.

Juan Flores, autor entre outras obras, de um livro de ensaios sobre a identidade porto-riquenha e diretor do Centro de Estudos Porto-riquenhos em Nova York, sustenta que a fronteira é uma fonte de inovação e de identificação cultural; um espaço que não pertence a ninguém, mas sim que se nutra da pluralidade.

Teria que acrescentar, pelo menos, os nomes de outros poetas niuyorricans: Pedro Pietri, Miguel Algarín, Sandra María Estévez, José A. Figueroa, Martín Espada e Louis Reyes Rivera .

FM O que dizer no caso particular de Manuel Ramos  Otero?

MP A poesia de Manuel Ramos  Otero não pode ser lida com indiferença. Tem capacidade para sacudir os leitores pela carga inusitada de sinceridade; pela crueza dos conceitos e do vocabulário. Pode, inclusive, dividi-los em dois bandos: uns a desprezam por atrevida, irreverente ou blasfema, e haverá aqueles que a aceitarão entusiasticamente por seu ímpeto e rebeldia, como um desafio à sociedade e um desejo de abertura total na literatura. assim como seus contos e romances, a poesia responde a uma vontade expressa de criar inquietudes e à necessidade psicológica, exagerada, de ser homem e poeta; de encarar o mundo, desafiante. É poesia eminentemente autobiográfica.

FM Em livro sobre Francisco Matos Paoli, o crítico Javier Ciordia Muguerza, observa a ausência de poetas porto-riquenhos em uma antologia da poesia hispano-americana organizada pelo espanhol Jorge Rodríguez Padrón e a pouca representatividade desta poesia no caso de uma antologia preparada pelo peruano Julio Ortega. Acrescento ainda um outro caso: a total ausência de menção à poesia porto-riquenha no caso de uma antologia assinada pelo colombiano Juan Gustavo Cobo Borda. A que atribuis essas ausências ou leituras insuficientes da poesia de teu país no restante da América Hispânica e mesmo da Espanha?

MP À indiferença ou negligência da parte dos porto-riquenhos e ao desconhecimento e descuido dos antólogos atribuo esta situação. aqui não existe ainda um sistema de distribuição internacional do livro porto-riquenho. Nem da parte das editoras oficiais - as do Instituto de Cultura Porto-riquenha e da Universidade de Porto Rico - nem da parte das editoras comerciais. Em geral (salvo uma meia dezena de autores que editaram ou co-editaram com casas do México, da Argentina ou de outros lugares), os livros não estão valorizados como produto comercial. Nem dentro da Ilha; muito menos no exterior. O câmbio da moeda na maior parte dos países hispano-americanos não favorece este comércio, pois resulta desfavorável para eles. As edições são puramente para o consumo interior, reduzidas a tiragens de 500 ou 1.000 exemplares (falamos de livros de literatura, não de textos para escolas ou universidades).

O mérito maior reside na vontade e esforços dos próprios autores. Fora disto, a iniciativa maior que se pode apontar é a participação de algumas casas editoriais nas feiras internacionais de Guadalajara (México), de Colômbia e Nova York e a celebração de duas feiras internacionais em Porto Rico (1997 e 1998), organizada por José Carvajal e sua esposa, a poeta Dalia Nieves Albert.

Admitindo o respeitado percentual de inércia e omissão por parte de todos neste assunto, creio que ainda nos alcança a repreensão do pensador Antonio S. Pedreira na década de 30, quando dizia: “Temos que desistir do voluntário abandono do nosso para acabar com o desdém e a indiferença com que nos olha o mundo”.

E para os estudiosos e antólogos da poesia contemporânea cabem muito bem estas palavras que Marcelino Menéndez y Pelayo escreveu há quase um século (a Jorge Rodríguez Padrón pela omissão total de autores porto-riquenhos em sua antologia; igual e pior o caso de Juan Gustavo Cobo Borda, porque esteve em Porto Rico; e a Julio Ortega, que reduz a apenas três autores a representação porto-riquenha). Porque não se conhece não se promove e porque não se promove não se conhece a excelente poesia porto-riquenha. Hoje, como ontem, há que dizer com a grande voz de dom Marcelino:

O país que… tem direito a ser julgado pelo que realmente vale, e a ocupar na literatura americana o lugar que até agora, com evidente injustiça, lhe tem sido negado em todas as coleções gerais formadas nas demais regiões do Novo Mundo.

MANUEL DE LA PUEBLA (Porto Rico, 1930)

Poeta e ensaísta. Criador e diretor das revistas Mairena e Julia. Prêmio Nacional de Poesia (1991), outorgado pelo PEN Club de Porto Rico. Autor de uma Antología de poesía puertorriqueña (3 tomos), em colaboração com Marcos Reyes Dávila, e La poesía actual del mundo hispánico (2 tomos).

[Entrevista realizada em abril de 1998]

PARA VOLVER AL ACERVO GENERAL

El acervo general de la Banda Hispánica fue creado en enero de 2001 para atender a una necesidad de concentrar en un mismo sitio informaciones acerca de la poesía de lengua española. El acervo contiene ensayos, reseñas, declaraciones, entrevistas, datos bibliográficos y poemas, reuniendo autores de distintas generaciones y tendencias, inclusive inéditos en términos de mercado editorial impreso. Aquellos poetas que deseen participar deben remitir a la coordinación general del Proyecto Editorial Banda Hispánica sus datos biobibliográficos, selección de 10 poemas y respuesta al cuestionario abajo:

1. ¿Cuáles son tus afinidades estéticas con otros poetas hispanoamericanos?

2. ¿Cuáles son las contribuciones esenciales que existen en la poesía que se hace en tu país que deberían tener repercusión o reconocimiento internacional?

3. ¿Qué impide una existencia de relaciones más estrechas entre los diversos países que conforman Hispanoamérica?

Todo este material debe ser encaminado en un único archivo en formato word, para el siguiente email: bandahispanica@gmail.com. Agradecemos también el envío de textos críticos y libros de poesía, así como material periodístico sobre el mismo tema. El acervo general de la Banda Hispánica es una fuente de informaciones que refleja, sobre todo, la generosidad amplia de todos aquellos que de ella participan.

Acompañamiento general de traducción y revisión a cargo de Gladys Mendía y Floriano Martins.

Abraxas

Jornal de Poesia (Brasil) La Otra (México) Matérika (Costa Rica) Blanco Móvil (México) Revista TriploV de Artes, Religiões e Ciências (Portugal, Brasil)

 

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Ficha Técnica

Projeto Editorial Banda Hispânica
Janeiro de 2010 | Fortaleza, Ceará - Brasil
Coordenação geral & concepção gráfica: Floriano Martins.
Direção geral do Jornal de Poesia: Soares Feitosa.
Projetos associados: La Cabra Ediciones (México) | Ediciones Andrómeda (Costa Rica) | Revista Blanco Móvil (México) | Triplov (Portugal).
Cumplicidade expressa: Alfonso Peña, Eduardo Mosches, Gladys Mendía, José Ángel Leyva, Maria Estela Guedes, Maria Luisa Passarge, Soares Feitosa e Socorro Nunes.
Projeto original criado em janeiro de 2001.
Contato: Floriano Martins bandahispanica@gmail.com | floriano.agulha@gmail.com.
As quatro sessões que integram este Projeto Editorial - Banda Hispânica, Coleção de Areia, Agulha Hispânica e Memória Radiante - possuem regras próprias de conformidade com o que está expresso no portal de cada uma delas.
Agradecemos a todos pela presença diversa e ampla difusão.