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Eduardo
Mitre: a razão ardente da poesia
Floriano Martins
FM
Iniciemos esta nossa conversa indagando sobre o seu
relacionamento com a poesia, este “exercício de soberania do
espírito”. Como lhe toca a poesia?
EM
A poesia é, como o amor e a amizade, uma experiência, um estado
de graça comum a todos. No caso do poeta, é um estado de graça
verbal, mesmo na desgraça. Em tua pergunta falas de uma
soberania do espírito que a poesia entranha. Sim, é isto, porém,
ao mesmo tempo e paradoxalmente, entranha uma fatalidade. Não se
é poeta porque se quer mas sim porque se deve sê-lo. Porém nesse
dever radica o exercício da liberdade. Em uma palavra: é uma
vocação, ou melhor: um destino assumido como vocação.
FM
Julio Ortega aponta em sua poesia um “vislumbrar, com as
palavras exatas, o deslumbramento”. Também Jesus Urzagasti nos
fala em “deslumbrante odisséia da lembrança” ao referir-se ao
poema “El peregrino y la ausencia”. Concorda com ambos nisto que
poderíamos situar como uma poética do deslumbramento?
EM
Creio que ambos, Ortega e Urzagasti, apontam uma das
características mais visíveis de minha poesia. É evidente que
parte dela é uma expressão do assombro frente ao mundo, frente
aos seres e coisas cotidianas: uma porta, uma palmeira, uma
cadeira, a neve, o mar. Talvez um verso de Octavio Paz: “o
esquecido assombro de estarmos vivos”, seja a tarefa que trata
de cumprir minha poesia como a de inumeráveis poetas. E nada
estranho nisto, pois a poesia, como a filosofia, está ligada ao
assombro frente ao ser. Ali onde o hábito vê uma “rugosa
realidade”, o olhar poético descobre uma perpétua novidade. A
poesia entranha, como a religião, uma revelação, uma epifania.
FM
Em certa ocasião você se refere acertadamente ao exílio como uma
“síndrome latino-americana”. Tendo vivido também essa
experiência, em que ponto a qualificaria de determinante em sua
obra?
EM
O termo exílio é muito amplo e muito rico. No contexto de
tua pergunta é claro que tem uma conotação política. Neste
sentido, a experiência do exílio foi uma das mais constantes e
desgarradoras da história latino-americana - com uma intensidade
crônica nas décadas de 60 e 70 -, ainda que, desgraçadamente,
não seja exclusividade dela. Em relação à minha poesia, “Razón
ardiente” é o texto que de maneira mais clara testemunha essa
experiência. Este poema foi escrito em Paris, pouco depois de um
dos golpes de estado mais cruéis que viveu meu país. Contudo,
creio que a poesia de Pedro Shimose é a que resume essa
desgarradora experiência de maneira mais intensa e constante. E
este é, entre outros, um dos méritos deste poeta.
FM
Em La luz del regreso (1990) se reproduz uma carta sua ao
crítico Luis H. Antezana, em que se reflete admiravelmente sobre
a gestação do poema “El peregrino y la ausencia”. Como situar o
“princípio de simetria”, a que ali se refere, em relação à
criação de um poema anterior, “Razón ardiente”? Considera a
poesia inteiramente ditada por essa ordem de correspondências?
EM
Não, não, estabelecer simetrias não foi o propósito desses
poemas, não foi uma vontade mas sim um princípio gerador dos
mesmos que pouco a pouco se foi manifestando. Nunca me senti tão
pouco autor como ao escrever “El peregrino y la ausencia”, pois,
como digo em “Conto de um canto”, a carta que mencionas, o poema
me foi ditado por um acaso, ou uma cadeia de acasos obediente a
uma secreta lógica implacável e impecável. Ao dizer isto não me
refiro, sem dúvida, à qualidade do poema, mas sim à maneira, ao
processo de sua escritura. O itinerário de sua redação, tanto ou
mais que o próprio poema, foi para mim a verdadeira experiência
poética. Daí a necessidade dessa carta ou relação minuciosa de
sua lenta gestação. Em troca, em “Razón ardiente”, mesmo que
também tenha sido um poema escrito lentamente, mais do que de
simetrias caberia falar em incursão de versos pertencentes a
outros poemas escritos muito tempo antes. Trata-se da irrupção
do passado através de alguns versos de conteúdo autobiográfico e
coletivo. Contudo, creio que podem ser feitas comparações entre
este poema e “El peregrino y la ausencia”: a multiplicidade de
tempos e espaços que ambos abraçam, a referência a episódios
trágicos da história: a ditadura sangrenta, o medo e o exílio,
no primeiro; e o massacre dos palestinos, no segundo. À margem
destas similitudes ou correspondências, as diferenças não são
menos notáveis: “Razón ardiente” tem uma escritura fragmentada,
espacial, enquanto que “El peregrino y la ausencia” uma
escritura bem mais discursiva, linear. O tom coloquial e a
intertextualidade são duas de suas características distintivas.
FM
Você nos fala que, por influência de Franz Tamayo, o modernismo
se prolongou, na Bolívia, até o final da primeira metade deste
século. Por outro lado, Jaime Sáenz lamenta que a Bolívia não dê
a Tamayo sua devida importância. Em 1970 a Biblioteca Ayacucho,
em Caracas, dedicou um longo volume a esta notável poeta
modernista, para alguns situado como o primeiro poeta da
América. Quem foi, de fato, Franz Tamayo?
EM
Franz Tamayo foi muitos homens: um pensador, um político, um
pedagogo e, sobretudo, um poeta extraordinário em alguns
momentos de sua obra. Digo em alguns momentos pois grande parte
de sua poesia, em minha opinião, confunde-se com a retórica
grandiloqüente. Não estou de acordo com as estimações que
pretendem fazer de Tamayo “o primeiro poeta da América”, nem o
segundo ou terceiro, porque essas hierarquizações são de ordem
bem mais desportiva. O que quer dizer isto de ser o primeiro e
da América? O evidente é que a obra de Tamayo é uma das mais
importantes da poesia boliviana.
FM
Referi-me a Jaime Sáenz, e recordo que em El árbol y la
piedra (1986) você situa sua poética como sendo, mais do que
um diálogo com o mundo, “um debate do eu consigo mesmo”. O
crítico Stefan Baciu, ao salientar que a literatura boliviana
não viveu a experiência da vanguarda que dominou a América
Latina nos anos 20, destaca este poeta como um dos mais
fundamentais na Bolívia, incluindo-o em sua já conhecida lista
de autores “parasurrealistas” (com a qual particularmente
discordo). Compartilha tal opinião, ou seja, há um vínculo entre
a poesia de Jaime Sáenz e a estética surrealista?
EM
Sim, na Bolívia a poesia de vanguarda não ingressa senão
tardiamente. Não tenho uma resposta que explique esta demora,
ainda que conjeture que tenha múltiplas causas, porém demandaria
muito espaço expô-las aqui. Em relação à poesia de Jaime Sáenz,
freqüentemente assimilada ao Surrealismo, como a de Edmundo
Camargo, creio que essa relação é válida se pensarmos que a
escritura surrealista tende à fratura do discurso racional,
coerente, para instalar outra lógica que expresse o irracional e
o onírico. O que não vejo em Sáenz nem em Camargo é o ideário,
ou as utopias revolucionárias que nutriram os surrealistas:
instaurar a poesia na vida, fazer desta uma obra de arte, muito
além da literatura. O erotismo, o amor, que nos surrealistas é
um ato revolucionário contra a ordem estabelecida, não creio que
o seja em Sáenz. Sua poesia amatória é uma constante e
comovedora evocação do sujeito amado ausente, não um
reconhecimento da presença. Por isto mesmo, o corpo é o grande
ausente de sua poesia. Falta-lhe essa ponte sensível. Em seu
lugar, Jaime Sáenz edificou uma obra originalíssima que não é
uma ponte mas sim uma escada em caracol pela qual o poeta sobe e
desce infatigavelmente nas trevas da solidão ou no vislumbre do
outro, da outridade, do tu libertador.
FM
A ética da poesia sempre foi divergente da ética da história. O
Surrealismo acentua essa disjunção justamente ao tentar encarnar
os valores da história, tornando a revelação desse “paradoxo
dramático” o principal alvo dos ataques que sofre
preconceituosamente até os dias de hoje. Contudo, ao acentuar
tão decisiva contradição, não residiria justamente aí uma de
suas contribuições essenciais?
EM
Esse paradoxo dramático se dá antes em vários poetas românticos,
não é verdade? Os surrealistas o retomam e, se queres, o
radicalizam. Contudo, longe de instalar uma ética poética na
história, acabam sendo, em alguns casos, assimilados por esta.
Pior ainda: afetados por uma de suas mais graves enfermidades: a
ideologia a-crítica, o dogmatismo. Ali creio que reside, mais do
que o paradoxo, a amarga ironia de vários membros desse
movimento, e que explica suas adesões a ideologias totalitárias,
amparadas em uma cegueira voluntária ou, no melhor dos casos, em
uma fé ingênua no mal necessário porém passageiro. Parece que
lhes faltou uma virtude muito simples e difícil de conseguir: a
humildade, intimamente relacionada à capacidade de duvidar de si
mesmos, de suas próprias idéias e crenças. No fundo, eram
espíritos religiosos e, por isto mesmo, muito proclives ao
fanatismo. Daí que suas ações se confundissem amiúde com as
profanações e que, do mesmo modo, seus manifestos contemplassem,
em vários casos, as excomunhões. Contudo, é necessário recordar
que alguns de seus membros, que mais tarde foram além do
Surrealismo, conservaram sempre uma lucidez crítica em nenhum
momento desmentida. Refiro-me, sobretudo, a Octavio Paz .
FM
Tendo em Gesta bárbara a formação grupal melhor definida na
literatura boliviana, e levando em conta seu vínculo direto com
o Surrealismo, é possível então afirmar que, embora tardiamente,
o Surrealismo teria sido, entre todas as vanguardas, a de
influência mais decisiva na poesia boliviana? A que poderíamos
nos referir como suas contribuições mais notáveis?
EM
O Surrealismo na poesia boliviana manifesta-se de maneira clara
em dois poetas até agora não muito bem estudados: Gustavo
Medinaceli e Julio de la Vega. Ambos encarnam uma liberdade
metafórica até então inusual na poesia boliviana. De igual
maneira, com eles o erotismo e a experiência da urbe moderna
cobram uma carta de cidadania à poesia de meu país. Mas o
Surrealismo não se limita a estes autores, estando presente, de
maneira soterrada, em quase todos os poetas dignos de menção:
Guillermo Viscarra Fabre, Roberto Echazú, para nomear dois de
gerações distintas e algo distantes. Frente à poesia classicista
de um Tamayo, o Surrealismo soprou como um vento de liberdade
formal, de exploração verbal.
FM
É sempre lamentável a maneira como a crítica deixa para trás
algumas obras literárias de grande importância. No âmbito da
poesia hispano-americana há casos notórios como o dos chilenos
Rosamel del Valle e Enrique Lihn e o do colombiano Jorge Gaitán
Durán - três fundamentais poetas e que, no entanto, raramente
ultrapassam a fronteira de seus países de origem, sendo
igualmente raros os estudos acerca de suas obras. Na poesia
boliviana, ao que me parece, Edmundo Camargo constitui o caso
mais gritante. A seu ver, o que ocasionaria esses desfoques da
crítica?
EM
Sim, desde já, no mapa da poesia latino-americana, há várias
obras importantes que não foram ainda suficientemente
valorizadas. Inclusive, e isto é o mais grave, algumas que quase
não são mais levadas em conta. Por exemplo, há poucos anos a mim
me pareceu lamentável que a poesia de José Eduardo Guerra fosse
praticamente desconhecida fora da Bolívia. O caso de Guerra não
é único e poderíamos acrescentar vários outros nomes de outros
países. Porém creio que é justamente a tarefa que se deve impor
a crítica: romper o isolamento, o desconhecimento das obras.
Desenterrá-las do silêncio em que jazem, é uma das tarefas mais
imediatas da crítica, e acaso sua maior razão de ser. |