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Nascida
em Buenos Aires e radicada na França desde que partiu para o
exílio, em 1978, Alicia Dujovne Ortiz é uma das figuras modernas
mais interessantes de migrante cultural. Na Argentina, trabalhou
como jornalista e escreveu três livros de poesia. Em 1978, se
estabeleceu na França e aí publicou vários romances. Ficou
conhecida pelo livro Maradona c’est moi (“Maradona sou
eu”), escrito em francês e publicado em 1992. Com a
biografia Eva Perón, lançada em 1995, teve grande
sucesso. Além dessa obra, tem outras traduzidas no Brasil. Entre
elas, Dora Maar, prisioneira do olhar, uma biografia da
fotógrafa surrealista que foi amante de Pablo Picasso, Mulher
da cor do tango, A árvore da cigana.
I.
MARADONA
No
âmbito da comemoração do descobrimento da América, em 1992, a
América Latina foi tema de várias exposições, debates e
conferências na França.
A mais
abrangente dessas manifestações,
A Arte da
América Latina, ocorreu no Centro Georges Pompidou, que fez
uma exposição das artes plásticas do subcontinente, cobrindo o
período de 1911 a 1968, com cerca de 500 obras de 84 artistas.
Apesar do projeto explícito de revelar a originalidade da
produção latino-americana, ela se limitou a inscrever as obras
nas correntes artísticas europeias ou apresentar os artistas
através das influências a que se expuseram na Europa.
São os
latino-americanos exilados em Paris, particularmente os
argentinos, que hoje dão uma imagem do seu país de origem que de
fato o revela ao público europeu. Assim Alfredo Arias, com a
peça
Mortadela,
um grande sucesso teatral. E assim Alicia Dujovne Ortiz, que, em
Maradona sou eu, por um lado focaliza o drama vivido pelo
jogador – pejorativamente tratado pelos napolitanos de
sudaca (“índio sul-americano”) – e, por outro, mostra quem
são os argentinos, permitindo uma reflexão sobre os outros
latino-americanos.
Tendo
em vista tal reflexão, em 1992, entrevistei Alicia Dujovne Ortiz,
que me falou de Maradona, do exílio parisiense e de Evita Perón,
cuja biografia ela estava preparando.
BM
“Bovary sou eu”, dizia Flaubert. Você agora, invertendo a
situação, diz: “Maradona sou eu”. Seria possível explicar esse
título?
ADO
Todos os
autores, como Flaubert, se identificam com seus personagens. Com
Maradona, a identificação se fez a partir do fato de que ele é
um sul-americano e um marginal, e eu comprendo perfeitamente a
marginalidade. Na verdade, só me identifico com as pessoas que
estão à margem, e isso resulta da minha história pessoal, do
fato de ser metade judia e metade cristã, sempre metade alguma
coisa. Nunca cheguei a pôr os pés numa sinagoga e tampouco numa
igreja. Gosto do Maradona pelo que há nele de picaresco, pelo
marginalismo que o leva a inventar incessantemente, mas ainda
porque ele é barroco como os meus poetas preferidos. Não joga de
maneira racional, é absolutamente imprevisível. No meu livro,
chamei a maneira dele de oblíqua.
BM
Você conta
a história do jogador através da história da sua viagem a
Nápoles, onde você passou uma semana fazendo uma pesquisa sobre
Maradona e, como boa argentina, se sentia inteiramente em casa.
Mesmo o leitor que não se interessa por futebol gosta do livro
porque viaja e se identifica com você. O seu grande achado nesse
Maradona sou eu é a própria estrutura do livro. Como foi
que você chegou a ela?
ADO
Boa
pergunta. Na verdade, foi a primeira vez que a estrutura de um
livro se impôs logo de saída. Meu grande problema sempre foi a
construção. Comecei na poesia, como muitos escritores
latino-americanos, que não sabem construir no sentido de
desenvolver uma só ideia. Eles montam fragmentos. O exemplo
típico é O jogo da amarelinha, do Cortázar. Eu antes
escrevia livros em que punha um fragmento ao lado do outro. O
cúmulo do livro fragmentário é A árvore da cigana
(Gallimard), a minha biografia contada por meio de fragmentos.
No Maradona sou eu a estrutura se impôs, não podia ser de
outra forma. E a mesma coisa me acontece com a biografia da Eva
Perón. Antes eu conhecia a felicidade da escrita automática, mas
agora tenho também o prazer da construção se fazendo por si.
BM
Você
saberia dizer o que a fez passar de uma para outra posição?
ADO
Me sinto
melhor comigo mesma. Paguei as minhas dívidas com o A árvore
da cigana, um livro que escrevi por todos os antepassados
que não tinham podido escrever suas vidas. Carreguei o peso das
histórias nos ombros e fiz. Daí, quando fui para Buenos Aires,
me senti tão bem que cheguei a me perguntar como me sentiria
voltando à França, onde depois eu me senti igualmente bem.
BM
Vamos
então falar desses dois países e da questão do exílio. Borges
disse, numa das suas entrevistas, que tanto os americanos do
norte quanto os do sul são europeus no exílio. Você, no seu
último livro, diz que na sua Argentina, na dos seus, as ideias
estavam à esquerda e o coração na Europa. Gostaria de saber o
que você pensa da ideia do Borges e se você vivia exilada na
Argentina?
ADO
Em Buenos
Aires eu tinha a sensação de estar exilada. Além disso, sou
meio-judia. Ser judia é o exílio, mas ser meio-judia é o cúmulo.
Sempre tive a sensação de não-pertencimento, uma nostalgia
difusa de uma enorme quantidade de países no mundo, que eu,
curiosamente, não fui procurar quando deixei a Argentina. Não
saí em busca de um país onde tivesse raízes; escolhi um exílio
literário.
BM
Um exílio
de escritor…
ADO
E o exílio
no meu caso foi muito positivo. Precisei ir até o limite da
sensação de não-pertencimento e justificá-la, escolhendo uma
terra exclusivamente literária. Paris, para mim, é uma folha de
papel. Além disso, eu aqui não me envolvo em nada. A Argentina
me comove demais.
BM
Você diz
no seu último livro que só percebeu o sentido do tango depois de
ter deixado a Argentina. Acha que foi preciso sair para
descobrir seu país?
ADO
Sim. Me
pediram que eu de certa forma o explicasse e me tornei a
intermediária, uma posição que me convinha perfeitamente, porque
sou metade judia, metade cristã, sou a intermediária por
natureza. Fiz um livro sobre Buenos Aires, outro sobre Maradona
e agora escrevo sobre Evita. Quanto ao tango, para entendê-lo, é
preciso ter perdido alguma coisa, de preferência uma terra. O
tango é um lamento, o do exilado que perdeu a sua infância.
BM
Você
escreveu que a Argentina se salvará no dia em que um cantor de
tango se olhar no espelho e, vendo o seu rosto trágico, cair
numa gargalhada.
ADO
Quando
escrevi isso, eu não estava pensando no lamento do exilado, mas
no do macho apaixonado pela sua mãe e totalmente incapaz de amar
uma mulher.
BM
O que
diferencia, na sua opinião, a Argentina do Brasil?
ADO
O Brasil
tem uma geografia que é um grande riso da natureza, uma
população marcada pelo negro, que é outro riso da natureza. Já
nós temos as quatro estações, estamos mais ao sul e somos
originários de países mediterrâneos, que são mais severos. Temos
um senso do trágico que nos vem sobretudo da Espanha.
BM
O que nós
teríamos a aprender uns com os outros?
ADO
Os
argentinos certamente teriam que aprender com os brasileiros a
não esquentar e também essa maneira que vocês têm de andar, a
ginga.
BM
E os
brasileiros?
ADO
Mas será
mesmo que a gente tem o que aprender uns com os outros?
BM
Como não?
Você não aprendeu nada com os franceses?
ADO
Aprendi
muito. Por exemplo, a planificar a minha existência, a me impor
limites. Paris é um grande escritório, e eu aqui escrevo bem,
trabalho bem. Quando cheguei à França, era incapaz de usar uma
agenda.
BM
Você
consegue agendar até a transa, como os franceses?
ADO
Não, isso
não!
BM
Você diria
comigo que nesse particular eles teriam a aprender conosco… o
sabor da improvisação?
ADO
Sim, e
também a intensidade.
BM
Você
poderia falar a respeito de seu próximo livro, sobre Perón e
Evita?
ADO
Perón era
um homem frio, calculista. Por um lado, o militar rígido,
austero, com horror ao contato físico, e, por outro, o
criollo, o homem da província, capaz de dar as suas
piscadelas para se tornar cúmplice das pessoas. Um sedutor que
desprezava todos os que seduzia e que tinha ao seu lado uma
mulher que era uma verdadeira chama, Evita. Ao contrário de
Perón, ela não tinha nenhuma ambiguidade, com ela tudo era
branco ou preto. Devia, por um lado, se sentir culpada em
relação a Perón, por causa da sua história anterior ao
casamento, e, por outro, se sentir purificada por ele. Aceitou
morrer porque Perón desejava que ela morresse. Sabendo que ela
era sua luz, ele dizia que ela era sua sombra. Evita teve um
câncer do qual não quis se tratar, o mesmo de que sua mãe, por
ter se operado, sarou.
BM
Por que
Perón queria a morte de Evita?
ADO
Porque era
competitivo. Quando o povo na Praça de Maio pediu que ela se
tornasse vice-presidente, ele deu um basta. Isso não significa
que não fosse uma relação de amor. Evita morreu, aceitando o
desejo do homem dela, e Perón, depois, se destruiu
completamente.
ADENDO # 1
Com
Sex, o
livro de Madonna, se tornou fácil para uma mulher dizer que é
homem. Antes da cantora, Alicia Dujovne Ortiz proclamou-se
Maradona, intitulando seu livro sobre o jogador: Maradona
sou eu. A escritora se disse homem, comparando-se a um dos
maiores do futebol. Isso não bastasse, fez a sua afirmação
parafraseando o “Bovary sou eu”, de Gustave Flaubert, e
associando, implicitamente, o seu nome ao dele. Triplamente
audaciosa, mas com inteira razão.
Ortiz,
sendo mulher, é Maradona, porque ambos são argentinos, e foi
também para falar dos seus conterrâneos que ela escreveu. Por
outro lado, pode, sem megalomania alguma, se comparar a
Flaubert, porque, através da escrita, fez do jogador um herói
trágico e, como o escritor, se identificou com o próprio
personagem.
Não foi
o sucesso de Maradona que a levou a escrever, mas seu fracasso,
a imagem do vencido chorando diante de todas as televisões no
último jogo da Copa de 1990, Alemanha x Argentina. Por que Diego
era vaiado pelos napolitanos depois de ter sido acolhido como um
rei?, se perguntava Alicia, olhando a câmara e já determinada a
encontrar a resposta.
Tentou
contatá-lo na Itália em abril de 1991. Tarde demais. O consumo
da cocaína havia sido comprovado e Maradona já tinha ido para a
Argentina. Que fazer? Alicia tomou o trem para Nápoles e aí
entrevistou todo o mundo, do treinador aos intelectuais
maradonólatras. Queria saber como Diego se tornou o amor de
Nápoles em 1984 e, depois de ter sido a alegria dos napolitanos
durante sete anos, passou a ser objeto de tamanho ódio.
Nesse
processo, em que a escritora descobre a máquina trituradora de
futebolistas, ela atina com o artista Maradona, o quase-anão
canhoto, cuja perna esquerda era mais grossa do que a direita e
parecia ver com os pés, “corria como uma imensa aranha negra e
peluda, multiplicando as suas patas”; um futebolista que ela diz
ser um poeta, como, aliás, Garrincha.
O
resultado é um livro lúcido e lúdico, no qual ficamos sabendo
que os argentinos de Buenos Aires preferem Nápoles a qualquer
outra cidade do mundo, porque “os imigrantes napolitanos
deixaram como herança um gesto que consiste em unir os cinco
dedos da mão para perguntar: Por quê?”. Um texto que narra uma
história trágica, privilegiando o humor e o estilo barroco dos
artistas latino-americanos, um hino de homenagem ao Sul.
II. EVA
PERÓN
Depois
de
Maradona
sou eu, Dujovne Ortiz publicou pela editora Grasset
Eva Perón e nos falou sobre esse trabalho numa longa
entrevista.
BM
O que deve o biógrafo fazer?
ADO
Pesquisar
nos arquivos, falar com os que conheram a pessoa, mas também
pensar no que não foi dito, no que foi ocultado, um trabalho que
os biógrafos em geral não querem realizar. Afirmam que não têm o
direito de fazer isso. Já eu acho que o biógrafo deve, sempre
que possível, interpretar.
BM
O que a
sua biografia traz de novo sobre Evita?
ADO
Mostra
outra face da relação entre Perón e Evita. É a primeira vez que
as testemunhas, por já estarem velhas e decepcionadas com o
menemismo, sugeriram que a relação entre os dois era terrível.
Da parte de Perón, um grande maquiavelismo, uma relação de
contínua utilização. Era o tipo do sedutor que só existe através
do outro. Já Evita idealizava Perón.
BM
O que a
levou a escrever este livro?
ADO
O Hector
Bianciotti, que além de escritor é diretor literário da Grasset,
me telefonou encomendando a biografia, e eu aceitei. Só depois,
quando comecei a pensar no assunto, entendi que era fundamental
para mim escrever essa biografia, que explica até a razão pela
qual estou na França. A minha família era antiperonista, mas eu
chorei quando Evita morreu, chorei porque havia uma dor no ar,
que uma criança de 12 anos não podia deixar de sentir.
BM
Os títulos
dos capítulos lembram títulos de capítulos de romance. Qual a
relação entre a biografia e o romance?
ADO
Não quero
fazer uma teoria geral sobre isso. Posso dizer qual é a minha
relação com a biografia, um gênero que obriga a estabelecer um
pacto com a verdade. Trata-se de uma limitação que, no meu caso,
foi absolutamente liberadora. Tive que respeitar as múltiplas
verdades de Evita e, com isso, me senti mais escritora do que
nunca.
BM
Será que
você poderia falar do livro a partir dos títulos dos capítulos?
ADO
O primeiro
capítulo se chama “A ilegítima”. O pai de Evita teve
cinco filhos com a mãe dela e depois desapareceu. A infância de
Evita foi marcada por esse fato. O segundo capítulo se chama “A
atriz” e corresponde ao momento em que Evita chega a
Buenos Aires, a capital, para se tornar atriz, vocação que era
tão forte quanto a sua ambição. O terceiro capítulo é “A amante”,
o momento em que Evita encontra Perón e ascende ao poder através
da cama. O coronel é ministro da Guerra e depois se torna
vice-presidente da República. Ela o apoia com o seu poder
radiofônico. O quarto capítulo é “A reconhecida”.
Corresponde à Revolução de 17 de outubro de 1945, o momento em
que Evita se sente reconhecida pelo povo e por Perón e
estabelece, com quem a legitima, uma relação de reconhecimento.
Evita teve sempre uma dívida com Perón, dívida que ela acabou
pagando com o sacrifício do próprio corpo, da saúde. O quinto
capítulo é “A esposa” e diz respeito ao papel de esposa do
presidente. Ela aí começa a forjar para si uma nova identidade.
Tenta se vestir de outra maneira, porém comete erros terríveis.
Evita, nessa época, assina Maria Eva Duarte de Perón, escrevendo
Maria Eva Duarte com letrinhas minúsculas e Perón em letras
garrafais. O sexto capítulo se chama “A mensageira” e
corresponde à viagem para a Europa. Dizia-se que Evita parecia
um arco-íris de beleza. A gente se pergunta se Perón não teria
aproveitado o arco-íris, que também era uma cortina de fumaça,
para fazer Evita depositar na Suíça o fabuloso tesouro dos
nazistas, o tesouro de Martin Borman. Seja como for, Evita se
torna ela mesma durante a viagem. Atinge o nível estético, a
beleza perfeita que farão dela uma personagem. Nasce para si
através da ida à Europa. Os argentinos não se tornam eles mesmos
antes de viajar para a Europa, para Meca. O sétimo capítulo do
livro é “A fundadora”. Corresponde à inauguração da
Fundação Eva Perón, onde ela trabalhou sete anos durante
vinte horas por dia, atendendo a centenas de miseráveis,
inaugurando clínicas, casas para mulheres sós, creches etc. São
anos de enorme trabalho. Evita, nesse período, usa um
tailleur e os cabelos presos, um coque que exprimia sua
maneira de existir, sempre centrada num mesmo ponto, no
trabalho. Não há mais flutuação alguma, é Evita absolutamente
decidida. O oitavo capítulo do livro é “A renunciadora”,
e diz respeito à mulher que admite se apagar, porque esse é o
desejo do seu homem, de Perón, que a inveja. Ela tenta se tornar
vice-presidente da Argentina, mas Perón se opõe, e ela desiste.
Nesse dia, começa a morrer, o seu câncer se torna fatal. O
último capítulo do livro se chama “A mártir, a múmia, a santa e
a avó”. A mártir, porque a doença foi um sofrimento atroz. A
múmia, porque ela foi mumificada – seu cadáver foi roubado pela
Revolução Libertadora, em 1955, apunhalado e depois entregue a
Perón, que teria dispensado o presente. A santa, porque o povo a
santificou – em cada cidade argentina existia um altar para
Evita, com velas estavam sempre acesas. A avó, porque, se Evita
não tivesse renunciado à sua ambição pessoal, teria se tornado
uma avó robusta.
BM
Evita é
filha ilegítima e Perón é filho só legitimado aos 6 anos.
Gostaria que você falasse da relação entre a falta do pai e o
peronismo.
ADO
É evidente
que o peronismo é uma procura do pai, como as outras ditaduras
latino-americanas, com a diferença de que Perón era um pai
sorridente, e não um pai feroz. Na época, se dizia que não era
uma ditadura e sim uma "ditamole". A especificidade do
peronismo é que, no topo do sistema, havia um homem e uma
mulher. Foi a única vez que isso aconteceu na América Latina.
Perón teve o mérito de valorizar o elemento feminino.
BM
Evita veio
do nada e se tornou a primeira-dama da Argentina. Que fatores
determinaram a ascensão dela?
ADO
A ambição
e o encontro com o coronel, que procurava uma mulher do rádio.
Perón conhecia bem a Itália de Mussolini e sabia da importância
do rádio. Evita fez tudo o que pôde para chegar até ele e,
quando o encontrou, mostrou bem que não era somente a mulher do
presidente. Evita sempre considerou que o amor era um meio para
se tornar ela mesma.
BM
Como
explicar o poder encantatório de Evita, que, aliás, se perpetuou
mesmo depois da morte?
ADO
Pela
crença absoluta no que ela dizia e pela linguagem, que era de
uma pobreza extrema, a linguagem do rádio. Evita também
conseguia encantar pelo ritmo do seu discurso, um ritmo que
vinha das entranhas. O que ela dizia não importava. O povo
gostava de ouvi-la repetir sempre a mesma coisa, se deixava
encantar pela reiteração das mesmas palavras.
BM
Por que
você escreve na biografia que a verdadeira história de Evita
começa em 1947, quando ela volta da turnê pela Europa e retoma
seu trabalho na Secretaria?
ADO
Até então
ela tinha muitos problemas sociais, era muito desprezada pela
oligarquia. As pessoas riam da sua roupa, do seu penteado. A
viagem para a Europa foi mágica, ela cumpriu um ritual de classe
social, passou a se vestir como uma deusa. Quem fazia a roupa
dela era Christian Dior. Ela tinha encontrado os grandes deste
mundo que, em troca de um navio de trigo, se ajoelhavam diante
dela. Em três meses, Evita havia se tornado uma grande dama e,
ao voltar, se dedicou à unica coisa que de fato a interessava: a
ação social.
BM
Você se
reconciliou com Evita por causa da ação social?
ADO
Sim, como
não respeitar uma mulher que trabalhou vinte horas por dia
durante anos? A gente pode não estar de acordo com o princípio
da distribuição direta, que se fundava numa ilusão econômica. A
abundância do peronismo era fictícia, não era um programa
econômico racional, e a prova disso é o que aconteceu depois. Só
que Evita passava horas escutando os miseráveis e os atendia.
Porque ela queria ser amada, claro, por razões de propaganda.
Mas será que a gente se mata por razões de propaganda?
BM
No fim da
guerra, os industriais alemães e os chefes nazistas transferiram
os seus bens para o exterior, onde criaram novas indústrias.
Entre os países escolhidos estava a Argentina. Você poderia
dizer por que as relações entre o nazismo e o peronismo foram
tão estreitas?
ADO
Existia o
pragmatismo de Perón. Ele dizia que a máquina alemã estava
vencida, porém, os técnicos e os cientistas que tinham
construído a máquina estavam vivos. Todos os países do mundo
queriam esses homens. Até aí, o cinismo de Perón é igual ao das
grandes potências mundiais. Mas havia 4 mil criminosos de guerra
nazistas em Buenos Aires, que foi a meca dos criminosos de
guerra. Mengele passeava livremente, sequer trocou de nome.
Perón considerava que o nazismo havia cometido excessos nos
campos de concentração, mas que o nazismo era uma saída. Essa é
a parte da história que eu não posso nem aceitar e nem perdoar.
BM
No Brasil,
a questão da identidade, a do “quem sou eu” ou “quem somos”,
como quis um ex-ministro da cultura, é uma questão da elite.
Você diz no seu livro que essa questão é herdada da Europa.
Seria possível explicar?
ADO
A Europa
tem ainda, ou teve até agora, uma ilusão de identidade única.
Com a mistura atual, essa ilusão vai acabar. Em duas ou três
gerações, a Europa vai ser como a América Latina. Basta sair à
rua para ver a cor variada das crianças. A Argentina herdou da
Europa a mesma ilusão de identidade única. Os argentinos se
perguntavam “quem sou” desejando responder como o avô espanhol
ou italiano, quando a realidade era outra.
BM
Os
argentinos têm com o imaginário a mesma relação que nós
brasileiros. Veem nele a sua via de saída. Mas os argentinos são
filhos do tango, que sempre faz a gente ouvir um gemido, um ai,
e nós somos filhos do samba, que exalta a alegria. Você diria
que nos diferenciamos pela nossa relação com a dor?
ADO
A alegria,
no Brasil, vem da riqueza imensa que é a população negra, e ela
remete ao presente. A Argentina viveu até aqui voltada para o
passado, para a terra perdida, que não volta mais. Contudo, não
se pode dizer que o samba salva e o tango, não. Todo gesto
realizado com profundidade e de maneira perfeita pode nos
salvar.
ADENDO # 2
Já em
1992, com
Maradona
sou eu, Alicia Dujovne Ortiz havia mostrado quem são os
argentinos no imaginário deles próprios e no dos outros.
Com a
biografia de Evita,
Eva Perón,
escreveu um livro que nos interessa porque, mostrando a relação
entre o peronismo e a falta do pai, leva a refletir sobre o
destino político do Brasil. Podemos nós escapar ao autoritarismo
e chegar a uma verdadeira democracia com tantos milhões de
crianças às quais falta um pai? Adultos futuros aos quais não
será dado estranhar algum chefe de estado que se apresente como
pai e, como Getúlio Vargas, diga: “A lei, ora a lei…”.
O livro
nos diz respeito e, através dele, nos espelhamos nos argentinos.
Ao ler, por exemplo, que a Argentina tem uma história curta e
cultiva o esquecimento ou que, para eles, a fantasia é que é
real. Mas
Eva Perón
também merece ser lido pela história que a autora, com seu
talento de romancista, narra divinamente bem, fazendo o leitor
se entregar com tanta fé quanto a fé que levou Eva Maria
Ibarguren, filha bastarda de um latifundiário e de uma mãe que
teria sido trocada por um jumento, a se tornar Eva Perón e
depois Evita, a madona de cabelos loiros.
Eva não
nasceu de Perón, que utilizou incansavelmente a imagem
carismática da esposa. Cada momento da vida da que um dia se
tornaria Evita anuncia o que vai acontecer depois, como mostra a
bela biografia de Dujovne Ortiz.
Bela
pela arte de que é capaz uma escritora de verdade, e não uma
simples biógrafa elevada à condição de escritora por algum
artifício do mercado editorial. A exemplo da beleza, o fragmento
sobre a transfiguração de Evita de morena para loira: “O ouro
transfigurava essa morena de brancura opaca, conferia-lhe uma
palidez estranha, que a sua doença futura tornaria sobrenatural.
A transparência da sua pele era acentuada pelo contraste com a
tintura, artifício aliás não dissimulado. As tintas, não tendo
ainda alcançado a perfeição de hoje, não pretendiam fazer a cor
exagerada parecer natural. Era um ouro teatral e simbólico, cuja
função era a mesma das auréolas e dos fundos dourados na pintura
religiosa da Idade Média: a de isolar as personagens sagradas,
mantê-las longe das cores da terra, do peso e do volume, longe
da carne opaca que ocupa um espaço e projeta uma sombra. Na
Argentina dos anos 1940, como na de hoje, as atrizes e as
burguesas sonhavam em se tornar loiras, adotar a cor prestigiosa
imposta pela civilização do Norte. Ser loira significava, e
significa ainda, escapar à maldição do Sul”.
Além de
ser o grande texto escrito sobre Eva Perón, a biografia feita
por Alicia Dujovne Ortiz é grande porque escapa aos limites
usuais do gênero. Não procura, em momento algum, dizer a
verdade sobre Evita, capturá-la numa imagem única. Talvez
porque o escritor saiba espontaneamente o que o psicanalista só
sabe graças à teoria, ou seja, que a verdade não existe
e que
o Eu único é uma ilusão. A autora deixa estar tantas
Evitas quantas existiram na realidade: a frívola, a cúpida, a
manipuladora, a insolente… Não é vítima do mito da coerência que
compromete outras biografias.
Descendente de imigrantes de várias nacionalidades, Dujovne
Ortiz soube ainda evidenciar a importância das diferentes
culturas na história de Evita, em que tanto pesa, por exemplo, o
machismo argentino – capaz de espalhar pela terra filhos
bastardos: quanto o voluntarismo basco – capaz de transformar
uma provinciana inculta na primeira-dama do país.
Last but
not least, esta biografia surpreende por certas considerações
luminosas. “Cada um comete o erro que lhe está destinado”,
afirma a autora, referindo-se tanto aos intelectuais que, em
1945, na Marcha da Constituição e da Liberdade, só souberam se
opor a Perón com a Marselhesa, quanto aos operários, que
erraram, elevando a chefe supremo da nação a um pai que
tranformou a oitava potência mundial num país quase
subdesenvolvido. |