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J O R N A L   D E   P O E S I A   |   F O R T A L E Z A l C E A R Á l B R A S I L
COORDENAÇÃO EDITORIAL   |   FLORIANO MARTINS
2001 - 2010
 

 

 

AGULHA HISPÂNICA | REVISTA DE CULTURA | 03

Jorge Gaitán Durán

O olhar de Jorge Gaitán Durán: aproximação ao interior de Bolero de G e outros textos inéditos | Nelson González Leal | Ensaio

Sobra-me o tempo” parece uma frase que só pode pronunciar um menino em pleno exercício de sua escassa autonomia. Para ele a continuidade não é mais que a aventura de um jogo de adivinhações que, aliás, não está na obrigação de resolver. Não, enquanto ainda infante e a vida não sabe bem como lhe acusar de irresponsável. Pode dar-se ao luxo, inclusive, de assumir o desafio e mesclá-lo de quando em quando com a ternura, para estabelecer os limites de seu caráter. Assim o fará, ainda sem muita consciência, por fortuna.

Mas ter tempo de sobra para retornar ao dia seguinte e recomeçá-lo tudo, é quase assumir-se como imortal, como alheio à penumbra e ao medo, que é essa espessura do sangue que nos impõe o longo silencio perante o humano. E anunciá-lo pode ser o chamado ao nascimento de uma esperança. “Sobra-me o tempo” é uma frase invocatória, conjuração da modorra, do lento deslocar do homem por um espaço ou uma geografia infestada de minúcias e de inalteráveis angústias. O resultado da invocação pode ser um destino de confronto, onde o antigo do ânimo -a alma- tome o espaço que sempre lhe pertenceu, para permutá-lo em uma emulsão aonde vaguem indissolúveis os desejos e os segredos.

Juan BustillosTal o tempo que anunciou Jorge Gaitán Durán em Bolero de G e outros textos inéditos: “Sobra-me o tempo / Poderia retornar ao dia seguinte e recomeçá-lo tudo. Imortal era La Cabrona; imortais eram as lavadeiras; imortais minhas atitudes de senhor, bandoleiro ou homem de negócios. Sempre inventava tarefas urgentes…”. [01] “De sobra” como consciência da perda do império, como invocação do confronto com o silêncio perante o humano. O poeta não é um menino nem um imortal. É, na verdade, um homem com pleno conhecimento do alcance das horas, que não dão trégua, que avançam silentes e eficazes na tarefa do desgaste, no impulso para a morte, por isso sabe que “sempre é muito tarde para fazer os sabidos gestos (contra ela)”. [02]

Gaitán procura o tempo, escava na possibilidade de retê-lo não como perpetuidade - nada mais afastado dele que essa pretensão goetheana de congelar o instante para fazer-se dono de sua perdurável beleza-, mas sim como hálito de coincidência para o encontro com o interior, com o real do ânimo, como laboratório onde mesclar os elementos do desejo e a necessidade, com o propósito de procurar a improvável estabilidade de uma fórmula que sempre foi volátil: o Eu.

Em seu olhar adolescente, que vemos no retrato de família extraído do arquivo de Paula Gaitán, [03] projeta-se o desafio. Desde aquele momento Gaitán não olha os objetos com a atitude de entrega, ou de resignação, ante sua fortaleza temporária. Não, desafia-os, como desafia à câmara que pretende congelá-lo em uma idade onde ainda é fundamental a hesitação, a procura, e sobre tudo a nunca negada possibilidade de ser perpetuamente outro.

Juan BustillosO olhar de Gaitán tem a intenção de transmitir uma vitalidade desafiante, inteligente, propenso ao escasso assombro, negada pelo menos ao assombro fácil, fútil, à resignação da entrega ao completo, ao formal. A forma oculta, tampa, agasalha, maquia, limita o conteúdo interior, a expressão do real, e impulsiona o vão intento de conjurar a morte. Vertiginosa, o olhar de Gaitán penetra em seus textos, dá-lhes ânimo, revela o trato intenso da palavra com as idéias que observa e as resgata da abstração e do castigo; coloca-as, irreparavelmente, fora de si, em equilíbrio desafiante com o prazer do outro e do Eu, com o destino final, invocatório, de todo homem, o de sua descontínua presença.

Jorge Gaitán Durán reservou para depois de sua morte os textos de Bolero de G. Sabe-se que desprezou alguns e conservou poucos (em um afã de cumprir a rigor com sua premissa da desconfiança acima de tudo o que se pode escolher de maneira imediata? Ou em um simples trabalho de recomposição da excelência? Ou em ambas, que são na realidade a mesma coisa). A algum destes chego por um acaso que se torna duplo: não procuro Gaitán, tampouco seus textos, mas me topo com eles e também com ele.

A mostra que recolhe a revista colombiana elmalpensante, em sua edição de janeiro-fevereiro 1997 - Nº 2, vem acompanhada de quatro fotografias. Uma delas me cativa, ou melhor, o que encontro numa delas, logo depois da leitura dos textos - e pode ter sido também antes.

Juan BustillosEm algum ponto impreciso de uma paisagem montês, a família Gaitán Durán decidiu perpetuar sua imagem. Estão ali Delina Durán, a mãe, vestida de ornamento, com fraque de lapela larga, o cabelo guardado em duas tranças e o rosto ligeiramente severo e ligeiramente doce, como o de uma insigne professora de escola. A professora rodeia brandamente o quadril do filho menor, Eduardo, de rosto perplexo e pícaro. A seu lado, Emilio Gaitán, o pai, afável, de sorriso fácil, de chapéu, pousa com delicadeza três dedos de sua mão direita sobre o ombro do mesmo perfil de seu filho mais velho, Jorge, que está sentado sobre uma pedra à que deveu colocar um lenço branco para evitar o estrago de seu pulcro, elegante, viril traje de gravata com nó italiano.

Resulta inevitável concentrar a curiosidade sobre o jovem Jorge, sobre seu rosto, sobre seu meio sorriso, sobre a intensa aderência de seu olhar. Se eu tivesse sido o fotógrafo, não tivesse podido desprender o foco desse gesto.

A atitude de Gaitán é a atitude de sua palavra: o desafio e a procura. Pode-se dizer que é uma primária disposição ao gênero intelectual, mas a obra que tenho lido antes [que inclui “Bolero de G”, “La Cabrona” e “La modorra en Cúcuta”] trasvasa elementos de uma contravenção perene e isso faz que se mantenha a salvo do registro distante. Gaitán tem tempo para jogar com a paisagem do amor e da morte, sem pretender conhecê-la - nem muito menos revelá-la. Tudo porque nele, em seus gestos literários, como prefiro chamar os trabalhos que leio, o desejo se sujeita “à tarefa irrevogável de inquirir” [04] qual é o desejo, o do Eu.

Todo o gesto escritural, literário, de Gaitán, possui um pouco de fissura, de corte sobre o eterno, sobre a pretensão de imortalidade que adoece o ato da escrita, de conformação poética da realidade: Gaitán pode recomeçar indefinidamente, desprezar e restituir, como um exercício de esmero sobre a arte que é “a gota de nada que lhe permitiria ser (ele mesmo)”. [05]

A procura do homem é uma dança desesperada ao redor da morte, daí a paixão que o impulsiona ao delírio da perpetuidade: ao amor, à cópula, à literatura, a tentar fazer-se parte da paisagem em uma fotografia para ter tempo de sobra, por exemplo.

 

 

NOTAS

 

01. De “La Cabrona”. Na revista elmalpensante, janeiro-fevereiro 1997, Nº 2, pág. 21.

02. De “La modorra en Cúcuta”. Na revista elmalpensante, janeiro-fevereiro 1997, Nº 2, pág. 22.

03. Ibidem.

04. Ibidem.

05. Ibidem.

Nelson González Leal (Venezuela, 1965). Autor, jornalista e fotógrafo. Vencedor do prestigioso prêmio de contos do jornal El Nacional da Venezuela, tem publicado Entre grillos y soledades (poesia, Petroleum, Venezuela, 1986), Una pista sutil (relatos, SCEZ, Venezuela, 1988), Un paseo por la narrativa venezolana. Ocho relatos cortos (antologia, Resma, Espanha, 1988), Esa pequeña porción del paraíso (romance, Comala, Venezuela, 2001), Pensar la Patria (ensaio, CONAC, Venezuela, 2004), Días Felices. Trece crónicas y una coda (crônicas, Monte Ávila Editores Latinoamericana, Venezuela, 2005) y Como si fuera esta noche la última vez y otros relatos (contos, El perro y la rana, Venezuela, 2008). Contato: negole@gmail.com. Página ilustrada con obras del artista Juan Bustillos (Bolivia).

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