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“Sobra-me
o tempo” parece uma frase que só pode pronunciar um menino em
pleno exercício de sua escassa autonomia. Para ele a
continuidade não é mais que a aventura de um jogo de
adivinhações que, aliás, não está na obrigação de resolver. Não,
enquanto ainda infante e a vida não sabe bem como lhe acusar de
irresponsável. Pode dar-se ao luxo, inclusive, de assumir o
desafio e mesclá-lo de quando em quando com a ternura, para
estabelecer os limites de seu caráter. Assim o fará, ainda sem
muita consciência, por fortuna.
Mas ter
tempo de sobra para retornar ao dia seguinte e recomeçá-lo tudo,
é quase assumir-se como imortal, como alheio à penumbra e ao
medo, que é essa espessura do sangue que nos impõe o longo
silencio perante o humano. E anunciá-lo pode ser o chamado ao
nascimento de uma esperança. “Sobra-me o tempo” é uma frase
invocatória, conjuração da modorra, do lento deslocar do homem
por um espaço ou uma geografia infestada de minúcias e de
inalteráveis angústias. O resultado da invocação pode ser um
destino de confronto, onde o antigo do ânimo -a alma- tome o
espaço que sempre lhe pertenceu, para permutá-lo em uma emulsão
aonde vaguem indissolúveis os desejos e os segredos.
Tal o
tempo que anunciou Jorge Gaitán Durán em Bolero de G e outros
textos inéditos: “Sobra-me o tempo / Poderia retornar ao dia
seguinte e recomeçá-lo tudo. Imortal era La Cabrona; imortais
eram as lavadeiras; imortais minhas atitudes de senhor,
bandoleiro ou homem de negócios. Sempre inventava tarefas
urgentes…”. [01] “De sobra” como consciência da perda do
império, como invocação do confronto com o silêncio perante o
humano. O poeta não é um menino nem um imortal. É, na verdade,
um homem com pleno conhecimento do alcance das horas, que não
dão trégua, que avançam silentes e eficazes na tarefa do
desgaste, no impulso para a morte, por isso sabe que “sempre é
muito tarde para fazer os sabidos gestos (contra ela)”. [02]
Gaitán
procura o tempo, escava na possibilidade de retê-lo não como
perpetuidade - nada mais afastado dele que essa pretensão
goetheana de congelar o instante para fazer-se dono de sua
perdurável beleza-, mas sim como hálito de coincidência para o
encontro com o interior, com o real do ânimo, como laboratório
onde mesclar os elementos do desejo e a necessidade, com o
propósito de procurar a improvável estabilidade de uma fórmula
que sempre foi volátil: o Eu.
Em seu
olhar adolescente, que vemos no retrato de família extraído do
arquivo de Paula Gaitán, [03] projeta-se o desafio. Desde
aquele momento Gaitán não olha os objetos com a atitude de
entrega, ou de resignação, ante sua fortaleza temporária. Não,
desafia-os, como desafia à câmara que pretende congelá-lo em uma
idade onde ainda é fundamental a hesitação, a procura, e sobre
tudo a nunca negada possibilidade de ser perpetuamente outro.
O olhar de
Gaitán tem a intenção de transmitir uma vitalidade desafiante,
inteligente, propenso ao escasso assombro, negada pelo menos ao
assombro fácil, fútil, à resignação da entrega ao completo, ao
formal. A forma oculta, tampa, agasalha, maquia, limita o
conteúdo interior, a expressão do real, e impulsiona o vão
intento de conjurar a morte. Vertiginosa, o olhar de Gaitán
penetra em seus textos, dá-lhes ânimo, revela o trato intenso da
palavra com as idéias que observa e as resgata da abstração e do
castigo; coloca-as, irreparavelmente, fora de si, em equilíbrio
desafiante com o prazer do outro e do Eu, com o destino final,
invocatório, de todo homem, o de sua descontínua presença.
Jorge
Gaitán Durán reservou para depois de sua morte os textos de
Bolero de G. Sabe-se que desprezou alguns e conservou poucos
(em um afã de cumprir a rigor com sua premissa da desconfiança
acima de tudo o que se pode escolher de maneira imediata? Ou em
um simples trabalho de recomposição da excelência? Ou em ambas,
que são na realidade a mesma coisa). A algum destes chego por um
acaso que se torna duplo: não procuro Gaitán, tampouco seus
textos, mas me topo com eles e também com ele.
A mostra
que recolhe a revista colombiana elmalpensante, em sua
edição de janeiro-fevereiro 1997 - Nº 2, vem acompanhada de
quatro fotografias. Uma delas me cativa, ou melhor, o que
encontro numa delas, logo depois da leitura dos textos - e pode
ter sido também antes.
Em algum
ponto impreciso de uma paisagem montês, a família Gaitán Durán
decidiu perpetuar sua imagem. Estão ali Delina Durán, a mãe,
vestida de ornamento, com fraque de lapela larga, o cabelo
guardado em duas tranças e o rosto ligeiramente severo e
ligeiramente doce, como o de uma insigne professora de escola. A
professora rodeia brandamente o quadril do filho menor, Eduardo,
de rosto perplexo e pícaro. A seu lado, Emilio Gaitán, o pai,
afável, de sorriso fácil, de chapéu, pousa com delicadeza três
dedos de sua mão direita sobre o ombro do mesmo perfil de seu
filho mais velho, Jorge, que está sentado sobre uma pedra à que
deveu colocar um lenço branco para evitar o estrago de seu
pulcro, elegante, viril traje de gravata com nó italiano.
Resulta
inevitável concentrar a curiosidade sobre o jovem Jorge, sobre
seu rosto, sobre seu meio sorriso, sobre a intensa aderência de
seu olhar. Se eu tivesse sido o fotógrafo, não tivesse podido
desprender o foco desse gesto.
A atitude
de Gaitán é a atitude de sua palavra: o desafio e a procura.
Pode-se dizer que é uma primária disposição ao gênero
intelectual, mas a obra que tenho lido antes [que inclui “Bolero
de G”, “La Cabrona” e “La modorra en Cúcuta”] trasvasa elementos
de uma contravenção perene e isso faz que se mantenha a salvo do
registro distante. Gaitán tem tempo para jogar com a paisagem do
amor e da morte, sem pretender conhecê-la - nem muito menos
revelá-la. Tudo porque nele, em seus gestos literários, como
prefiro chamar os trabalhos que leio, o desejo se sujeita “à
tarefa irrevogável de inquirir” [04] qual é o desejo, o
do Eu.
Todo o
gesto escritural, literário, de Gaitán, possui um pouco de
fissura, de corte sobre o eterno, sobre a pretensão de
imortalidade que adoece o ato da escrita, de conformação poética
da realidade: Gaitán pode recomeçar indefinidamente, desprezar e
restituir, como um exercício de esmero sobre a arte que é “a
gota de nada que lhe permitiria ser (ele mesmo)”. [05]
A procura
do homem é uma dança desesperada ao redor da morte, daí a paixão
que o impulsiona ao delírio da perpetuidade: ao amor, à cópula,
à literatura, a tentar fazer-se parte da paisagem em uma
fotografia para ter tempo de sobra, por exemplo.

NOTAS
01. De “La
Cabrona”. Na revista elmalpensante, janeiro-fevereiro
1997, Nº 2, pág. 21.
02. De “La modorra en Cúcuta”.
Na revista
elmalpensante, janeiro-fevereiro 1997, Nº 2, pág. 22.
03.
Ibidem.
04.
Ibidem.
05.
Ibidem. |
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Nelson
González Leal (Venezuela, 1965). Autor, jornalista e fotógrafo.
Vencedor do prestigioso prêmio de contos do jornal El
Nacional da Venezuela, tem publicado Entre grillos y
soledades (poesia, Petroleum, Venezuela, 1986), Una pista
sutil (relatos, SCEZ, Venezuela, 1988), Un paseo por la
narrativa venezolana. Ocho relatos cortos (antologia, Resma,
Espanha, 1988), Esa pequeña porción del paraíso (romance,
Comala, Venezuela, 2001), Pensar la Patria (ensaio, CONAC,
Venezuela, 2004), Días Felices. Trece crónicas y una coda
(crônicas, Monte Ávila Editores Latinoamericana, Venezuela,
2005) y
Como si fuera esta noche la última vez y otros relatos
(contos, El perro y la rana, Venezuela, 2008). Contato:
negole@gmail.com. Página ilustrada con
obras del artista Juan Bustillos (Bolivia). |