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J O R N A L   D E   P O E S I A   |   F O R T A L E Z A l C E A R Á l B R A S I L
COORDENAÇÃO EDITORIAL   |   FLORIANO MARTINS
2001 - 2010
 

 

 

AGULHA HISPÂNICA | REVISTA DE CULTURA | 02

Alvaro Mutis

Alvaro Mutis: a errância | Betty Milan | Entrevista

Nasceu na Colômbia, Bogotá, em 1923, e logo depois foi com a família para Bruxelas, onde seu pai atuou como embaixador. Voltou aos 11 anos para o país natal, depois se tornou locutor de rádio, vendedor de seguro e colaborador dos principais jornais colombianos, publicando poesias e ensaios. Em 1956, depois da guerra civil e com a ascensão de uma Junta Militar ao poder, transferiu-se para o México, onde passou a viver. Enquanto escrevia, Mutis atuou profissionalmente como diretor de relações públicas da multinacional do petróleo Esso e, por duas décadas, foi gerente de vendas dos estúdios Fox e Columbia Pictures para emissoras de televisão da América Latina. Em 1973, o conjunto da sua obra poética foi publicado em Barcelona, sob o título Suma de Maqroll el Gaviero. Desde 1985, se dedica a uma obra romanesca: Empresas y tribulaciones de Maqroll el Gaviero (“Empresas e tribulações de Maqroll el Gaviero”). Pelo primeiro livro dessa série, A neve do almirante, recebeu em 1989 na França o Prêmio Médicis Estrangeiro e, a partir de então, ficou conhecido no mundo inteiro. Outros títulos seus que circulam no Brasil são Ilona chega com a chuva, A última escala do velho cargueiro e Poesias. Em 1995, Alvaro Mutis teve traduzido na França como Le rendez-vous de Bergen (“O encontro de Bergen”), seu Tríptico de mar y tierra, livro de contos lançado na Colômbia em 1993. Tanto para ouvi-lo falar desse livro quanto do seu percurso anterior, eu o entrevistei no Hotel des Saints Pères, onde os autores da editora Grasset costumam receber a imprensa. Escritor fecundo, Mutis não é propriamente uma pessoa loquaz. Nem por isso deixa de dizer o essencial, como mostra a entrevista. [BM]

BM Até os 60 anos, o senhor não escreveu prosa e diz mesmo que é o mais jovem romancista do mundo. Por que a prosa aconteceu tão tarde na sua vida?

AM Tinha escrito um livro de novelas há quarenta anos. Também escrevi muitos poemas em prosa. Nunca tive a impressão de deixar a poesia para passar à prosa. As mesmas imagens e obsessões que estiveram presentes na minha poesia estão presentes no meu romance.

Guillermo CenicerosBM Sim, mas o senhor agora se voltou para o romance.

AM Não, escrevi dois livros de poesia junto com o último romance.

BM O senhor se considera um escritor fecundo?

AM Não. Para mim, escrever é tão difícil que eu penso muito antes de sentar diante da página em branco.

BM Quando li, não tive a impressão de uma relação torturada com a escrita.

AM Tanto melhor.

BM Maqroll el Gaviero é um personagem que já existia na sua obra poética e continuou a existir em cada um dos seus livros de prosa. Gostaria de saber como foi que ele nasceu na poesia, como renasceu em cada um dos seus textos em prosa e como evoluiu ao longo da sua existência.

AM O segundo poema que escrevi, quando já tinha a intenção de publicar minha poesia, se chama A reza de Maqroll el Gaviero. Já nesse poema existia um retrato do Gaviero. Eu era jovem na época, mas a minha poesia era bastante cética, amarga. Escrevi um livro inteiro de poemas sobre Maqroll, que se chama A resenha dos hospitais de Ultramar. Ele está presente em quase todos os meus livros de poesia e também nos romances. Não tenho a impressão de que mudou muito de um livro para o outro, só que a presença de Maqroll hoje é quase física, ele tem um passado, um presente, viveu muitas coisas nos livros de poemas e nos meus sete romances e agora está diante de mim com o peso de uma personagem viva.

BM Personagem ou pessoa?

[Perguntei estranhando a afirmação de Alvaro Mutis, porque, sendo ele um ficcionista, a aparição de Maqroll como personagem viva não devia lhe causar estranheza.]

MUTIS Pessoa.

[Mutis corrige a sua afirmação, que se configura como um lapso e obriga a pensar que, para o autor, a diferença entre a personagem – que é imaginária e é tomada enquanto tal – e a alucinação – que é imaginária, mas tomada como real – não é clara. Seja como for, a referência a Maqroll como personagem reaparece em todos os depoimentos dele e parece fascinar os entrevistadores.]

BM: O que se passa no face a face entre o senhor e Maqroll?

Guillermo CenicerosAM De tempos em tempos, há uma relação de desafio. Por exemplo, quando quero fazê-lo ir para um determinado lugar e ele protesta, me diz que seria mais lógico resolver outros problemas que ficaram pendentes no livro anterior. Há uma continuidade na vida de Maqroll, que ele reivindica – e cada dia mais.

BM O personagem exige uma coerência da sua parte?

AM Sim, coerência e atenção.

BM De certa maneira, ele o sujeita.

AM Sou vítima dele.

BM O senhor acaso quer deixar de ser?

AM Não, não quero.

BM Maqroll el Gaviero é um eterno errante. Por que a errância é um tema central na sua obra?

AM Porque eu vivi em muitos países. Deixei o meu país quando tinha 2 anos. Meu pai pertencia ao corpo diplomático e nós fomos para a Bélgica, onde fiquei até os 11 anos. Com essa idade, voltei para a Colômbia. Mais tarde, fui para os Estados Unidos, viajei pela América Latina inteira, sem parar, durante 25 anos.

BM Por causa do trabalho?

AM Sim, primeiro vendendo os programas do departamento de televisão da Twenty Century Fox e depois os da Columbia Pictures.

BM Jamil, um conto do seu último livro, O encontro de Bergen, me fez pensar que Maqroll el Gaviero erra para depois poder contar. O senhor diria que contar é tão importante quanto errar?

AM Sim, contar é uma maneira de errar. Reconstruir a errância é uma forma de passar por ela novamente.

BM Gostaria de saber o que a errância propicia ao senhor como pessoa.

AM Não sei bem. Não é fácil responder a isso. Comecei a minha vida com a errância e para mim ela é absolutamente natural.

BM O seu pai era embaixador, e o senhor nasceu destinado a viajar, portanto.

AM Sim. Venho de duas famílias de proprietários de fazendas de café e eles gostavam muito de viajar. Os pais da minha mãe possuíam um apartamento em Paris. Os pais do meu pai viveram na Espanha, onde tinham muitos amigos.

BM Tinham uma ligação importante com a Europa, como muitos latino-americanos daquela época...

AM Sim, eles preferiam a Europa aos Estados Unidos.

BM E hoje como é na Colômbia?

Guillermo CenicerosAM Infelizmente, preferem os Estados Unidos.

BM Por que infelizmente?

AM Porque eu acho que é uma influência que não tem nada a ver com o nosso passado. Somos mestiços, crioulos, mistura de europeu e índio, e nada temos a ver com os anglo-saxões, com os protestantes, com toda a ideologia dos quakers.

BM E se nós voltássemos ao seu último livro, O encontro de Bergen?

AM OK.

BM Pouco antes de se separar do menino Jamil, que tem de ir embora para o Líbano com a mãe, Maqroll afirma que nada o levaria a repetir suas aventuras anteriores – subir o rio com um capitão alcoólatra, enterrar-se vivo à procura de ouro nas minas abandonadas da Cordilheira etc. – depois da revelação que foi a vida com o menino. Vida que teria tido sobre ele um verdadeiro efeito salvador. Isso faz pensar que a errância pode ser uma condenação.

AM Acho que pode mesmo. Durante muitos anos, procurei motivos para que Maqroll permanecesse no mesmo lugar. Ao escrever O encontro de Bergen, achava que a afeição pelo menino ia mostrar a Maqroll a outra face da vida.

BM Mostrou?

AM Isso eu vou responder no meu próximo livro.

BM Maqroll é um navegador que sai sempre vivo de cada uma das suas aventuras e depois volta para contar a história. Que relação existe entre Maqroll e Simbad, o Marujo? e entre a sua obra e As mil e uma noites?

AM Simbad foi, durante toda a minha juventude, um dos meus personagens preferidos. As mil e uma noites é um livro perfeito. Cada vez que vou contar uma história, me recolho e penso no ritmo das histórias do livro. Xerazade é genial, ela é a grande contadora e foi uma excelente ideia ter escolhido uma mulher para contar, porque só as mulheres conhecem o verdadeiro fim das histórias. Os homens são mais superficiais. São as mulheres que sabem das consequências de cada passo na vida.

BM Sua obra também é uma reflexão sobre a morte. No seu romance anterior, Abdul Bashur, o senhor diz que cada um “cultiva, escolhe, irriga, esculpe, modela a sua própria morte”. Seria possível explicar o que isso significa?

Guillermo CenicerosAM Cada ser humano, pelo seu destino e pelo seu caráter, constrói uma determinada morte. Basta considerar o que você pode realizar e o que não pode para saber o que vai lamentar no fim da vida. Ou basta ainda pensar nas pessoas que você escolheu durante a sua vida e nas que afastou para saber quem vai chorar a sua morte e quem não vai. Escrevi uma história de um militar que morre muito feliz, porque morre nos braços da mulher amada.

BM Bonito isso. O senhor gostaria de acrescentar algo ao que já me disse?

AM Sim. Quando comecei a escrever, imaginava que Maqroll estava e ficaria sob o meu controle; hoje, eu às vezes me pego pensando nele, me perguntando o que pensaria disso ou daquilo. Por exemplo, quando ganhei o Prêmio Caillois, em Reims, eu me disse que, se o Maqroll soubesse, ele me daria um pito, porque não acredita que se deva premiar o que quer que seja. O prêmio, do ponto de vista dele, está na criação e na experiência.

BM Verdade.

Betty Milan (Brasil, 1944). Romancista, ensaísta e dramaturga. Colaborou nos principais jornais brasileiros e atualmente é colunista da revista Veja. Sua bibliografia inclui títulos como O papagaio e o doutor (1991), Paris não acaba nunca (1996), e Fale com ela (2007). Entrevista originalmente publicada como “O destino de um aventureiro”, Folha de S. Paulo, 21/01/1996, figura no livro A força da palavra (Editora Record, 1996). Contato: bettymilan@free.fr. Página ilustrada com obras do artista Guillermo Ceniceros (México).

PORTADA DE LA PRESENTE EDICIÓN

El Proyecto Editorial Banda Hispánica crea su propia revista para atender la necesidad de circulación periódica de ideas, reflexiones, propuestas, acompañamiento crítico de aspectos relevantes en lo que se refiere al tema de la cultura en América Hispánica. Agulha Hispânica tratará de temas generales ligados al arte y a la cultura, constituyendo un forum amplio de discusión de asuntos diversos, estableciendo puntos de contacto entre los países hispano-americanos que  posibiliten una mayor articulación entre sus referentes. Revista de circulación bimestral, invitará en cada edición un artista plástico para ilustrar integralmente sus páginas. Las materias a ser publicadas dependerán con exclusividad de la invitación de la coordinación general. Comentarios de lectores y  colaboradores deben ser encaminados a bandahispanica@gmail.com.
Acompañamiento general de traducción y revisión a cargo de Gladys Mendía y Floriano Martins.

 

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