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Sânzio de Azevedo
Ismênia
O velho professor acendeu um cigarro
e, percebendo a expectativa dos amigos, começou:
– A história é muito antiga, do fim da
escravidão no Brasil. Foi contada por alguém que vivera na época, a
um jovem que muitos anos mais tarde, já velho, a passou para mim. Se
é verdadeira mesmo, não posso lá garantir, mas penso que ninguém
teria necessidade de inventar uma coisa desse tipo.
O caso é que num vilarejo do sul do
Ceará, ou melhor, nas proximidades desse vilarejo, havia uma
fazendola onde morava uma jovem muito bonita que, sendo filha única,
havia perdido o pai e, pouco depois, a mãe, e vivia com uma mucama
bem nova, Anastácia, e dois escravos, um velho, Cosme, e outro,
moço, chamado Luís. A jovem chamava-se Ismênia, tinha uns vinte e
cinco anos de idade, era morena, esbelta e, como eu já disse, muito
bonita. Entretanto não havia um só rapaz que conseguisse cortejá-la.
Altiva e voluntariosa, ela machucou muitos corações com seu
desprezo.
Quase todos os jovens, por mais que se
sentissem atraídos pela sua beleza, terminavam por se conformar com
a recusa. E digo quase porque um, de nome Lauro, nunca pôde engolir
a afronta de ser desprezado e, cheio de despeito, passou a dizer, a
quem quisesse ouvir, que Ismênia parecia não gostar de homem,
insinuando mesmo alguma ligação entre a moça e a mucama.
Ficando a fazendola um tanto distante
das casas do vilarejo, o que se passava em seu interior era ignorado
pelos moradores da vizinhança.
Não há segredo, porém, que um dia não
venha à tona, e o velho Cosme começou a desconfiar do fato de
Ismênia, umas três vezes por semana, se recolher à noite para um
quintal, com recomendação de não ser incomodada. É que ele percebeu
que em nenhuma dessas noites via o escravo Luís pelas redondezas.
Resolveu investigar o fato, começando
por abrir, na ausência da senhora, uma pequena brecha na janela do
quarto em que ela se recolhia, a fim de que, espreitando por fora,
pudesse espiar o que acontecia lá dentro.
Numa das noites em que a moça se
dirigiu ao quarto, Cosme rodeou a casa e se escondeu no quintal. Já
aguardava um momento propício para se aproximar quando ouviu estalar
um chicote. Chegando perto da janela, pôde ver, à luz de uma vela
que havia no quarto, uma cena inesperada: Ismênia, em pé,
inteiramente nua, mais bela do que nunca, açoitava o escravo Luís
que, ajoelhado, tinha a cabeça na altura do ventre da senhora. Ela
lhe ordenava imperiosamente que não parasse. E o negro parecia
sentir prazer com aquilo, pois quanto mais apanhava mais acariciava
as coxas e os quadris de Ismênia.
Cosme confessaria depois que, apesar
da idade, havia experimentado a estranha sensação de, por um
momento, querer estar no lugar de Luís…
Em outras noites, excitado pela
descoberta, ia mais cedo para o seu posto de observação e
presenciava o início do ato: Ismênia acendia a vela, tirava toda a
roupa e ordenava rispidamente a Luís que se ajoelhasse. Ele obedecia
e se curvava humilde, esperando que a senhora o açoitasse, quando,
então, a cena se repetia.
Quando atingia o clímax, a moça
soltava o chicote e, com as duas mãos, segurava a cabeça do escravo,
apertando-a entre as coxas.
Pensava o velho Cosme que não teria
mais surpresas, quando, uma noite, viu entrar no quarto a senhora
acompanhada não por Luís, e sim pela Anastácia. Desta vez, diferente
do que se sucedia com o escravo, Ismênia não foi ríspida. Pelo
contrário: foi até carinhosa, ao afagar o rosto da mucama, quando
ela se ajoelhou. Mas, na hora do êxtase, repetiu o que costumava
fazer com Luís, segurando fortemente a cabeça de Anastácia entre as
coxas.
Vocês estão vendo que se confirmava
assim, pelo menos em parte, o que o despeitado Lauro havia espalhado
sobre a mulher que o havia desprezado…
Mas não pensem que a história termina
aqui: vindo a Abolição, a mucama e os dois escravos continuaram
trabalhando na fazendola como pessoas livres, e podiam agora andar
por onde quisessem. Luís, submisso à ex-senhora, continuava sempre
por perto, esperando suas ordens, mas o velho Cosme começou a beber
pelas tabernas do lugarejo e, em suas bebedeiras, deu para fazer
comentários sobre as cenas que havia presenciado. Não é preciso
dizer que essas histórias foram se espalhando e, daí a pouco, não
havia quem não tivesse ouvido falar dos estranhos costumes da jovem
Ismênia.
Lauro, o que nunca se conformou com o
desprezo da moça, terminou seus dias na prisão. Isso depois que
foram encontradas na fazendola os corpos de Ismênia, de Luís e da
mucama Anastácia. A única testemunha de que fora ele o assassino era
Cosme. O rapaz protestou inocência, mas contava contra ele o
testemunho de pelo menos umas dez pessoas que o tinham ouvido falar
da moça com visível ressentimento, até mesmo aludindo a uma possível
vingança.
Quanto ao velho Cosme, sempre que
falavam no crime, ficava extremamente nervoso e procurava mudar de
assunto. Até que um dia, talvez para não mais ouvir nada sobre a
tragédia, desapareceu da região, e nunca ninguém soube do seu
paradeiro...
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