Mundo
antigo
Os
acasos da vida editorial têm também os seus caprichos, como
a publicação simultânea de dois livros sem qualquer
ligação direta um com o outro, a não ser a contemporaneidade
dos personagens, testemunhas e participantes de um Brasil antigo, tanto
mais homogêneo em si mesmo quanto, como é óbvio, mais
incompatível com os nossos atuais parâmetros de vida social
e intelectual (Maurício Nabuco. Reflexões e reminiscências
(Rio: Nova Fronteira), e Márcia Camargos. Villa Kyrial: crônica
de belle époque paulistana São Paulo: Senac, 2001).
Seria despropositado pôr
em paralelo as recordações de Maurício Nabuco (1881-1979)
e Minha formação, esse clássico da memorialística
universal. Os dois livros se distinguem pelo estilo, pela matéria,
pela cobertura historiográfica e até pelo fator intimidante
de ser o autor, em um dos casos, filho de Joaquim Nabuco. Respondendo ao
título com fidelidade e sem falsa modéstia, Maurício
Nabuco escreveu o livro convencional dos diplomatas aposentados, com observações
sobre o que se pode ter, não só como os aspectos salonescos
da profissão, mas também o espaço menos nobre que
é a cozinha do ministério.
Quanto a isso, não
foi mais corrosivo que o habitual, sem deixar de lado, entretanto, os previsíveis
ajustes de contas com políticos e colegas, cumprindo o preceito
de que a vingança é prato que se come frio. Acrescenta-se,
apesar de tudo, a lancinante nostalgia da idade de ouro para sempre desaparecida:
Nessun maggior dolore... Ainda assim, são proveitosas até
hoje muitas das suas observações sobre a carreira, algumas
delas destinadas a ofendere a vaidade ou a empáfia dos colegas:
"É que a formação diplomática não é
mais propícia para alargar o espírito. Nnao sei mesmo se
haverá carreira mais imprópria para ampliar o horizonte individual.
(...) Nomeados adidos de embaixada (...) passam a copiar à máquina
coisas sem interesse. Daí é fácil passarem a dar importância
que não merecem às minúcias burocráticas ou
sociais – como sempre fizeram as figuras secundárias da carreira
– por exemplo, ao formato, tipo e papel do cartão de visita (...)
e, desse ponto em diante, sua carreira muitas vezes constitui triste descida
intelectual (...)."
O Ministério das Relações
Exteriores, acrescentava na mesma ordem de idéias, "deve ser provido
por estadistas", não pelos chamados "técnicos", cuja especialização
limita o que as funções implicam de largos horizontes intelectuais.
Observação que se pode estender a todas as pastas: não
é necessário, nem aconselhável, que o ministro da
Agricultura seja agricultor, nem que seja professor o ministro da Educação,
a propósito, que somente em nossos dias foram entregues a um civil
as pastas da Defesa, apesar do exemplo deixado por Epitácio Pessoa,
que entregou a da Guerra (como então se chamava) a Pandiá
Calógeras, o que Maurício Nabuco estima "manifestação
de maturidade política", aliás recebida com os resmungos
dos subordinados. Com relação a Abelardo Rôças
(1881-1950), para lembrar uma curiosa personalidade, são ambivalentes
os setnimentos de Maurício Nabuco: "Teve carreira de displicência
funcional, servindo-se de preferência da lábia e do apoio
político, quando sua inteligência e seu talento estilístico
lhe teriam facilitado outro caminho". Reconhece, entretanto, que escreveu
"o mais sutil retrato que já se pintou de Getúlio Vargas.
Fê-lo em castelhano quando embaixador no México, e no panegírico
pôs em relevo todas as qualidades, sem omitir um único defeito
do retratado."
Posso acrescentar tratar-se
do artigo anônimo publicado a 7 de setembro de 1988 no jornal Excelsior,
daquela cidade. Sugeri desde logo a sua autoria, o que Maurício
Nabuco confirma, sem, de resto, identificar-lhe a origem (veja /W.M. História
da inteligência brasileira, vol. VII). Enquanto tudo isso se passava,
José de Freitas Valle (1870-1958) vivia em São Paulo uma
existência de gloriosa notoriedade, destinada a terminar em melancólico
exílio interior com o fim da primeira República, de que foi
um dos expoentes paradigmáticos.
Além do mecenato intelectual
e artístico com que se beneficiaram artistas e escritores do Modernismo,
como Anita Malfatti, Sousa Lima, Villa Lobos, Brecheret (que os modernistas
se vangloriavam de haver "descoberto"), sem excluir Mário de Andrade
e Oswald de Andrade, freqüentandores habituais da Villa Kyrial e dos
seus almocos, Freitas Valle teve papel decisivo e dinâmico no desenvolvimento
da instrução pública no estado de São Paulo,
modelo pioneiro para o resto do país: "As medidas mais expressivas
(...) ocorreram no ensino primário, com a introdução,
na década de dez, no grupo escolar, que gradualmente serviria de
modelo para o restante do país, (...) presidente da Comissão
de Instrução Pública por muitos anos. Vale apresentou
projetos de lei criando escolas operárias e agrícolas para
menores, reformulando os cursos da Escola Politécnica e da Escola
Superior de Agricultura Luiz de Queiroz e fundando a Escola Normal do Brás.
Foi também responsável pela remodelação da
Biblioteca Pública que, até 1911, existia apenas nominalmente
(...)."
Por sua militância
no campo educacional ao longo de 27 anos de mandatos consecutivos como
deputado e senador (estadual), Freitas Valle teria sido o artífice,
naquele período, "da maior parte da legislação de
ensino em São Paulo." Literalmente, foi poeta simbolista de segundo
escalão, autor de algumas peças representadas com sucesso
no Rio e em São Paulo. Sob o pseudônimo de Jacques D'Avray,
escrevia em francês, língua oficial do simbolismo brasileiro,
editando os seus livros em pequenas tiragens fora de comércio. Na
autorizada opinião de Manuel Bandeira, "seu trabalho não
era desdenhável", mas acrescentava que "Jacques d"Avray foi o grande
erro de Freitas Valle".
Pode-se pensar que erro ainda
maior foi a Villa Kyrial, com seu ambiente de provocadora ostentação
aristocrática, símbolo perfeito de época e da classe
e que pertencia. O livro de Márcia Camargos é um ato de justiça.
|